28 de maio de 2009

A vergonha na cara foi ali tomar um café e disse que não volta

Leio no Estadão que o programa de TV de Hugo Chávez, chamado "Alô Presidente", completa 10 anos. A "atração" é veiculada pela emissora estatal VTV. Quem vai levar o presente, porém, é o povo venezuelano. Como comemoração, Chávez fará um programa especial que tem a pretensão de ser uma grande aula - sabe-se lá do que. O presidente garantiu que "será um programa como nunca visto antes". O povo deve estar bastante ansioso para ver a novidade. Como se sabe, o comandante-em-chefe raramente abre a boca. Segundo o próprio Chávez, suas aparições, até hoje, tiveram 1536 horas de veiculação líquida. Isso é o equivalente a passar 64 dias seguidos apreciando vossa majestade na TV. Realmente estimulante.

Quem comentou as festividades foi outro craque em matéria de democracia e pluralidade de idéias. Fidel Castro, como sempre, inovou em seu discurso: "Na épica luta da Revolução Bolivariana, sem esse programa, o imperialismo e a oligarquia, com seu controle quase absoluto dos meios de comunicação de massa, suas calúnias e mentiras, teriam destruído a Revolução na Venezuela", comentou o bravo revolucionário usando argumentos novíssimos. O curioso mesmo é ver Fidel Castro falar em controle dos meios de comunicação. Em Cuba, os únicos meios de comunicação autorizados são controlados pelo governo. Mantidos por uma oligarquia que veste um verde de extremo mal gosto e promove uma ditadura feroz. Ah, é claro, trata-se de uma ditadura de esquerda. Então pode. Está tudo bem.

Resenha de A Volta do Idiota, de Montaner, Mendonza e Llosa

Odisséia Editorial, 2007, 238 pp.


No parágrafo de encerramento do Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano, Plinio Apuyelo Mendonza, Carlos Alberto Montaner e Álvaro Vargas Llosa sentenciam com certa tristeza a própria derrota perante a idiotice ideológica que se espalhara na América Latina. Disseram isso há 13 anos. Infelizmente, não poderiam estar mais certos. A parte final dos anos 90 e os primeiros anos após a virada do século presenciaram um retorno vigoroso dos populistas de esquerda nos países latinos. As velhas bravatas nacionalistas, antiamericanas e anticapitalistas estavam de volta. E não é que o povo acreditou na conversa? Como consolo, a trinca de ases que assinou o Manual não deixou os acontecimentos passarem como um ônibus que não pára no ponto. Com a mesma pena crítica e ao mesmo tempo divertida lançaram no mercado, em 2007, A Volta do Idiota.

 

Novos tempos, novos idiotas. Antes tínhamos Fidel Castro como protagonista. Agora temos Hugo Chávez no papel capital. O presidente venezuelano é a personagem principal de A Volta. Descrito pelos autores como o "melhor aluno” de Castro, Chávez reúne com destreza as características que um idiota exemplar deve conter. Para azar dos venezuelanos, o autoritarismo figura entre tais características. Segundo A Volta, no ano de 2004 o presidente venezuelano aprovou de maneira inconstitucional o aumento de 20 para 32 cadeiras no Supremo Tribunal de Justiça. Evidentemente, a medida acarretou uma maioria favorável a Chávez no judiciário. Nem fez questão de disfarçar: assim que o magistrado eleito para presidir a corte tomou seu posto, declarou que “todo juiz que emitir julgamentos contrários aos princípios revolucionários será destituído e sua sentença anulada”.

 

Aparelhar o judiciário pareceu não bastar. Os delírios do simpático presidente causaram uma verdadeira confusão na economia daquele país. O livro nos conta que a ingerência econômica de Hugo Chávez provocou uma desvalorização de astronômicos 292% na moeda venezuelana em um período de apenas sete anos. Não se pode negar que é uma marca verdadeiramente prodigiosa. No mesmo período, o México teve uma queda de 16% (marca insignificante perto da venezuelana). Pelo visto, não dá para colocar a culpa nos EUA. Com uma economia em frangalhos, a Venezuela ficou em situação desfavorável para resolver problemas graves como a pobreza.

 

Com uma sacada inteligente, o trio de escritores divide a esquerda latino-americana em duas principais frentes: vegetariana e carnívora. A primeira pode ser descrita como um esquerdismo moderado, atento às demandas da economia mundial, respeitosa aos mercados e avessa ao radicalismo jurássico dos barbudos furiosos da velha guarda. O principal exemplo dessa esquerda serena é a presidente do Chile Michelle Bachelet. Com uma gestão predominantemente liberal, Bachelet ajudou o país a conquistar índices cada vez melhores na economia (aumento da produção) e na área social (redução da pobreza). Já a esquerda carnívora, capitaneada por Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales, parece ainda rezar na cartilha dos tempos da Guerra Fria. Presa em uma espécie de radicalismo anacrônico, desconfia de tudo que tenha cheiro de livre mercado, livre iniciativa e abertura ao capital externo.

 

No decorrer da obra, os autores nos mostram exemplos de países que conseguiram prosperar com uma agenda responsável de reformas políticas e econômicas. Em uma análise curta (porém cuidadosa) do que fizeram Espanha, Irlanda, o já citado Chile e alguns outros, a nossa trinca de ases argumenta que é possível o desenvolvimento adotando um modelo honestamente liberal. Indo, portanto, na contramão do ideário quase elevado ao posto de evangelho em nossas terras.

 

Por fim, a leitura de A Volta do Idiota nos faz questionar certos dogmas repetidos até a exaustão nos círculos pensantes da América Latina. Da mesma forma que o Manual, provoca a reflexão sobre nossos próprios erros ao longo da história. Para deixar a idiotice de lado definitivamente, o livro apresenta no último capítulo uma espécie de penicilina ideológica: a sugestão de obras fundamentais para a cura da idiotia. Hayek, Arthur Koestler e Karl Popper estão entre os indicados. Embora a leitura da “saga do idiota” seja deliciosa, espero que Mendonza, Montaner e Llosa não precisem escrever mais um livro. Que a sentença por eles decretada no fim do Manual descanse em paz algum dia.   

 

Leitura imperdível.

4 de maio de 2009

Miopia e astigmatismo

Por Yoani Sánchez: http://www.desdecuba.com/generaciony

Ponho os óculos e lanço um olhar à cidade desmantelada onde vivo. Com estes cristais coloridos da esperança, meu coração bombeia com mais tranquilidade, sem sobressaltos. Graças a eles compreeendo que não subo quatorze andares devido a ineficiência estatal - incapaz de montar o elevador depois de cinco meses - mas sim que sou uma ecologista perfeita disposta a consumir somente meu combustível humano. Com este novo vidro com que olho tudo, percebo que no meu prato a carne se ausenta, não pelo seu altíssimo preço no mercado senão porque amo os animais e evito o sofrimento e o sacrifício deles.

Careço de um conexão à Internet em casa, porém as rosadas lentes escondem de mim que este serviço seja exclusivo para funcionários e estrangeiros residentes. Talvez queiram proteger-me das “perversões” da rede, digo a mim mesma, tal e como faria o ridiculo Candido de Voltaire. Assim comprovei, por um brevíssimo tempo, ver palácios no lugar de ruínas, líderes que nos levam à vitória quando na realidade nos conduzem ao precipício e homens que se hipnotizam com minha cabeleira, ainda que eu saiba que me seguem para vigiar-me.

O problema começa quando tiro as lentes de candidez e olho o que me rodeia, com as reais cores da crise. A dor na panturrilhas volta, como resposta às grandes escadarias; começo a sonhar com uma bisteca e um modem piscando torna-se um desejo quase erótico. Jogo os óculos do otimismo da minha varanda, talvez haja alguem lá em baixo que contudo prefira usá-las, que ainda queira distorcer a realidade com eles.

Texto de 23 de março de 2009

28 de abril de 2009

Luta pela liberdade no paraíso das esquerdas

Às vezes temos gratas surpresas navegando pela internet. Nessas andanças pela rede, encontrei o blog de Yoani Sánchez. Trata-se de uma cubana, residente na própria ilha, que escreve com frequência sobre as dificuldades de viver em um país onde falta tudo - sobretudo a liberdade. Sánchez foi a vencedora do prêmio Ortega y Gasset de jornalismo no ano de 2008 (o governo cubano, porém, não autorizou a viagem da blogueira à Espanha para receber o prêmio). A luta pela liberdade de expressão foi talvez o principal motivo do justíssimo prêmio concedido à jornalista (que é filóloga por formação). Além do prêmio, a blogueira foi eleita pela revista Time, no mesmo ano, a 31ª personalidade mais influente do mundo.
Para quem se interessar, o endereço do blog é http://www.desdecuba.com/generaciony/.
Boa matéria do Estadão sobre Sánchez: 
Em tempo, o blog pode ser lido em 13 línguas.

24 de abril de 2009

Camisinha? Aí não, é demais

O presidente do Paraguai Fernando Lugo foi surpreendido nos últimos dias com a revelação de que é pai. Assumiu a cria. Nem deu tempo de absorver o golpe e mais duas paraguaias já apontaram para a excelência como pai de suas crianças. A esperança de Lugo é que essas duas novas acusações sejam, digamos, paraguaias.
Fernando Lugo, antes de chegar a presidência, foi por muitos anos padre da Igreja Católica. Pelo visto, foi um homem que seguia as recomendações da Santa Madre: sexo, só se for sem camisinha. Como o Vaticano não gosta muito do gorro de látex, o obediente padre disse amém e coabitou de acordo com as preferências da Igreja. Um padre transar, vá lá. Usar camisinha já é demais.

13 de abril de 2009

Anátemas do mundo moderno

"É proibido pensar". O título da boa música do compositor protestante João Alexandre me lembra – mais uma vez! – George Orwell. No influente romance 1984 o autor menciona a Polícia do Pensamento, que, de helicóptero, sobrevoa as casas para bisbilhotar a vida dos cidadãos. É bom lembrar que o romance de Orwell retrata uma sociedade totalitária. Dessa forma, o partido é a razão de viver da população, a prostituição semântica e a falsificação histórica constituem a regra e o culto à personalidade de um ditador é compulsório.

Mas e daí? Não vivemos em um estado totalitário. Não há nenhuma polícia do pensamento. Não há um ditador vitalício com a cara estampada em todas as esquinas. É óbvio que as três proposições anteriores são verdadeiras. Isso, contudo, não é suficiente para eliminar a existência de certo patrulhamento (informal) que se encrava justamente no pensamento. O alarme soa quando se constata que determinados valores são - só por serem, digamos, moderninhos - colocados em um patamar de superioridade intelectual. Adota-se qualquer entulho como vanguardista e a predicação positiva é quase imediata. Desse modo, tudo aquilo que vai em sentido contrário é, por definição, retrógrado ou, para usar o velho clichê, reacionário.

De fato, pensar contra a corrente está ficando cada vez mais arriscado. É só ver a conotação imediata que palavras como “família”, “princípios” e “fidelidade” possuem atualmente. São tidas como antigas e anacrônicas. É uma espécie de ditadura velada de valores (ou da falta deles) que está em voga. Não ser moderno virou anátema. Não ser subjetivista se tornou motivo de repreensão. A palavrinha “moral” virou palavrão. Não ser politicamente correto transformou-se imediatamente em reacionarismo ideológico. Tudo isso em nome de um progressismo idiota que domina a cabeça de boa parte da nossa intelligentsia. Um vírus cultural pretensamente tolerante e inclusivo que na prática é intolerante e exclusivo com o diferente. Algo como um relativismo não relativo em que os que não comungam dos dogmas da tal tolerância e inclusão já estão errados - a priori. 

O vídeo da música, logo abaixo, é uma crítica aos atuais modismos que vem assolando há tempos a comunidade evangélica. Mas a mensagem pode ser transportada para outras esferas. A dica da música veio de Samuel Barbi, um grande e sensato amigo.


9 de abril de 2009

O Estado é Kim

O ditador da Coréia do Norte, Kim-Jong-il, foi eleito mais uma vez para ocupar o cargo de líder da nação, noticiou ontem a agência EFE. Como é muito carismático e popular, obteve nada menos do que 100% dos votos. O homem é realmente amado. E se ele foi reconduzido ao cargo por meio de uma eleição, isso só prova que a Coréia do Norte é grande exemplo de democracia. Faz eleição até para ditador. O próprio nome do país confirma: República Democrática Popular da Coréia. Não há razões para duvidar.
O carismático mandatário da Coréia do Norte se igualou em porcentagem de votos a outro ícone democrático. Em 2002, Saddam Hussein recebeu 100% dos votos em plebiscito que permitia ao líder mais um mandato. Graças a Alá. 
Ano passado, ao ser eleito para o sexto mandato como presidente do miserável Zimbábue, Robert Mugabe foi um pouco mais escrupuloso. Obteve apenas 85,5% dos votos. O outro concorrente ao cargo na época desistiu do pleito por causa de atentados vindos de partidários de Mugabe. Tudo muito democrático.

6 de abril de 2009

A "newspeak" do caudilho

Eles são todos praticamente iguais. Com algumas diferenças de grau, excentricidade e autoritarismo, os líderes populistas de esquerda parecem seguir uma cartilha bem definida. Se é assim, Hugo Chávez aprendeu bem uma das lições fundamentais: infligir aos pobres venezuelanos horas semanais de discursos. A aporrinhação é feita pela TV. O presidente gosta de falar sobre tudo. Do divino ao humano, do físico ao metafísico. Para qualquer coisa o sábio tem resposta. E para tudo há um culpado: os Estados Unidos, obviamente. O grande dragão imperialista do norte é visto como uma espécie de Emmanuel Goldstein chavista. 
Tudo muito óbvio, até aí. E nossos intelectuais e acadêmicos ficam de bico fechado. O homem está fazendo uma maravilhosa trilha em direção ao velho socialismo autoritário. Ou seja, está andando com vigor em direção a um passado que quase todo mundo quer esquecer. Silêncio dos "isentos" e azar dos venezuelanos. Mas se Chávez diz que se trata apenas do "socialismo do século XXI", a gente acredita. Não é, doutor Emir Sader?
Mais interessante e nada surpreendente é que, nesse tipo de governo, a expressão "newspeak", cunhada por George Orwell - traduzida em português por "novilíngua" - se faz tão atual quanto assustadora. Não há o menor respeito nem pela mentira. Leio no interessante blog de Janaína Figueiredo, do jornal O Globo, que Chávez colocou em prática uma tal Lei de Descentralização. O que faz a tal lei? Centraliza, é claro. A descentralização chavista concentra, por exemplo, nas mãos do governo central, o controle de portos e aeroportos, prejudicando bastante a economia dos estados.
Ainda fazendo aquela das pernas curtas corar de vergonha, Chávez adora dizer que seu país é um exemplo de democracia. Afinal, tudo passa pelo crivo popular. A democracia exemplar pôde ser demonstrada no ano de 2004. O caudilho aumentou de 20 para 32 o número de magistrados no poder judiciário. O aumento teve a clara intenção de criar uma maioria favorável aos ideais bolivarianos do homem. Aparelhar o judiciário é atitude bastante democrática. Recentemente, informa a blogueira de O Globo, o governo central tem investido contra os opositores, eleitos com a mesma democracia que colocou Chávez no poder. Um dos resultados dessa investida é a bizarra idéia de se criar um chefe de governo em Caracas, capital do país, para tirar Antonio Ledezma do poder. Ledezma é da oposição. Democracia?... Então tá.
E assim caminha a Venezuela. Uma descentralização que centraliza e uma democracia cada vez mais autoritária. O clássico 1984 jamais foi tão atual. Basta olhar para os nossos vizinhos vitimados, entre outras coisas, pelo estupro semântico de Chávez. Isso Paulo Henrique Amorim não vê.

5 de abril de 2009

E o papo ainda rende...

Apesar de discordar de várias de suas posições, há uma que me incomoda mais: as religiões. Vamos lá. Antes de qualquer coisa, é absolutamente irrelevante se Maomé pode ou não pode ser chamado de pedófilo devido ao contexto histórico em que ele viveu. Isso não me interessa nem um pouco. O que está em causa é que em minha opinião, errada ou certa, um homem que viola uma criança de menos de 10 anos é um pedófilo e fim de papo. Por acaso esse predicado se aplica ao fundador de uma religião que viveu antes do século X? Sim, paciência. É bem documentado que Maomé “coabitou” com Aisha quando esta era uma criança. Eu penso que boa parte dos países muçulmanos são estados bárbaros? Penso. Novamente, paciência. Acredito piamente que esse papo de encontrar virgens no paraíso é o mais puro e ridículo conto do vigário? Sim! Acho que levantar o traseiro cinco vezes por dia para rezar para uma ficção é idéia de jerico? Certamente sim. Vou deixar de dar minhas opiniões porque os aiatolás ficarão nervosinhos? Nem por um segundo! Estamos dando asas às cobras, vejamos os motivos:

Em 1989, o escritor indo-britânico Salman Rushdie teve sua morte decretada pelo então líder do Irã aiatolá Khomeini porque um romance da autoria de Rushdie teria ofendido o profeta Maomé. É assim: lá do alto do mirante um neandertal decreta a morte de um escritor ocidental e estamos conversados. Qualquer muçulmano que encontrar com Rushdie deverá matá-lo. Aliás, a fatwa é um decreto dado por uma autoridade religiosa e é bem possível que não se possa mais criticar a própria fatwa. Criticar o direito de aiatolás darem sentenças de morte por aí pode ser, quem sabe, violação dos direitos humanos. Mas continuando...

Em 2004, o cineasta holandês Theo Van Gogh foi morto em seu próprio país porque estava na altura produzindo um filme sobre a situação da mulher no islamismo. O cineasta foi assassinado por um muçulmano de origem marroquina que pelo visto não tinha gostado da idéia da película. Aliás, talvez o assassino tivesse razão hoje. Por que não classificar um filme que retrata a situação da mulher no avançadíssimo islã como uma violação aos direitos humanos?

Em 2005, e você já deve ter visto a imagem por aqui, a publicação de charges de Maomé por jornais dinamarqueses provocou a ira dos brutos! Como são bastante sutis, queimaram embaixadas e bandeiras de países ocidentais. Para os muçulmanos, o simples ato de publicar charges sobre Maomé já é denegrir a religião.

Ora, diante disso tudo, o que fazer? Censurar os veículos de comunicação de países ocidentais que ousarem criticar o islamismo? Punir por difamação religiosa quem o fizer? Aliás, o que define o que degrada ou não uma religião? Se for a opinião dos próprios crentes, no caso do islamismo é melhor nem tocarmos no assunto, já que qualquer coisa é ofensa. Ou seja, qualquer coisa irá gerar radicalismos. Isso coloca em dúvida se devemos colocar nas possíveis reações os limites do que podemos falar. Um simples romance já é suficiente para uma fatwa. Então tá. Essa é a cabeça dos aiatolás.

Os católicos, bem ou mal, parecem ter percebido que não é este o caminho. Quando o Monty Phyton lançou em 1979 um filme que colocava o próprio Cristo em situações vexatórias, a reação foi mais, digamos, civilizada. Aliás, devemos proibir a exibição do filme “A Vida de Brian”? O filme certamente denigre “símbolos” e “entidades”, visto que o próprio filho de Deus é tratado como um tonto.

Se alguém fizer uma crítica a uma religião para querer fomentar um debate, tanto melhor. Porém, caso outra pessoa queira simplsmente dizer que o papa é um “um ser humano inútil dirigindo uma instituição de merda”, não há porque proibir. Ah, é claro, os católicos ficarão muito nervosos. Mas dó mesmo eu tenho dos satanistas. Os coitados – já que resolveram adotar o lado negro da força – têm suas entidades sagradas xingadas e açoitadas há tempos. Ninguém fala nada. 

No mais, em nenhum momento eu disse ser favorável a loucuras como entrar numa uma Igreja Universal proferindo impropérios contra o mercenário que está lá na frente. Tampouco fazer isso num centro de umbanda, num centro espírita ou em qualquer mercado da fé que o valha. Seria absolutamente ridículo e, claro, atrapalharia o próprio direito de culto. E pessoalmente estou me lixando para o que as pessoas adoram por aí. Deus, diabo, espíritos, entidades, símbolos, pessoas, antepassados, ETs, ideologias políticas ou qualquer outra coisa. Jamais irei a um culto umbandista dizer que aquilo ali é religião primitiva e tosca. Mas aqui eu digo: aquilo ali é religião primitiva e tosca. O Pai de Santo não gostou? Que toque um atabaque. 

Com isso tudo, para reiterar, é bem difícil conectar o que não deve ser dito com o fator reações. O caso dos muçulmanos deixa isso bem claro. Qualquer coisa deixa os adoradores de Alá ofendidos. Logo, que não se critique mais o islã. Para eles, não existe muito esse papo de contexto. Não dá para atribuir a eles a relativa civilidade que temos aqui desse lado do globo.

Watson e o racismo

Achei sua posição bem razoável, apesar de não poder dizer que tenho essa confiança toda no judiciário. Talvez isso seja mal de mineiro. Desconfia de tudo. Se muitas vezes eu desconfio até dos meus amigos mais diletos, que dirá de instituições? Sei não, sei não. A minha posição é que se o trabalho científico não promover nenhum tipo de segregação, tudo bem. É evidente que algumas pessoas ficarão ofendidas. Assim como algumas mulheres ficam bastante ofendidas quando se diz que em atividades como dirigir, por exemplo, os homens costumam ser mais eficientes. Isso por causa de características naturais de cara gênero. Dizer que uma raça, por exemplo, em média, tem um índice de inteligência superior do que outra não deve, somente por isso, ser tipificada como racismo.

Até hoje, nunca ouvi falar de um caso de um asiático, ou alguém que defenda com tanto fundamentalismo a superioridade asiática no tocante a inteligência, que tenha usado tal tese para ofender as outras “raças” praticando o crime de injúria qualificada, ou induzindo e incitando a discriminação racial de “não asiáticos” recaindo na hipótese do racismo.

Pois é, mas pode acontecer. Assim como nem todas as pessoas que defendem a superioridade européia ou, sei lá, branca, no tocante à inteligência tem como objetico cometer crimes. Vamos com calma! E você sabe que se um incauto qualquer defender essa tese por aí, mesmo que não seja com intuito de promover segregação, será provavelmente achincalhado só pelo teor da idéia. Isso ocorre ainda em casos mais leves. Já vi gente que somente ousou elogiar a cultura e a beleza brancas ser acusado de nazista. Acho que o “subjetivismo” do julgamento pode ser bastante prejudicado por conta desse viés.

Por favor, me aponte o momento no qual falei em censura PRÉVIA as idéias de Watson!!!   

Calma! Não disse que você apóia a censura prévia às idéias de Watson. Se pareceu, desculpe.

Ora, o fato de causar um mal estar no outro indivíduo e até no circulo social onde tal frase é aplicada, ferindo a sua dignidade e à sua honra por causa da cor da sua pele não significa nada para você?

Significa, sim. Tendo até a te acompanhar um pouco no que você disse após colocar essa pergunta. Mas até agora não há um argumento que me demonstre que uma pessoa qualquer não possa dizer que simplesmente não gosta de raças ou tipos X ou Y. Coisa diferente é um dono de restaurante dizer, para impedir a entrada de um negro, que não gosta de negros. Supondo que, sei lá, numa pesquisa de opinião nas ruas, alguém responda a pergunta “você gosta de negros?” com uma negativa, é absurdo demais supor que o entrevistado deva responder por algo. Tem gente que não gosta de negros. Tem gente que não gosta de brancos. Tem gente que não gosta de índios e tem gente que não gosta de asiáticos. Fazer o que? Temos lá nossos preconceitos idiotas. E desde que não promovamos a violência e a segregação, fazer o que? Acho que nada.

Sobre o exemplo do rapaz que foi chamado de corno, que destempero, não? Não sei se concordo com as considerações do juiz. Tendo a achar que não. Posso estar errado, mas imagino que isso poderia relativizar outros crimes por aí. Mas não tenho opinião formada sobre tal. Só quero atentar para uma coisa: a tal subjetividade que você tantas vezes invoca pode não ser tão subjetiva assim. Pode ser bastante enviesada.

O comentário de Steven Pinker só foi para demonstrar que a noção de raça não é exatamente uma falácia. No seu comentário anterior você coloca a questão como se fosse uma bobagem já refutada há séculos, como a idéia de que o Sol gira em torno da Terra. E não é. Você pode até ficar com os cientistas que mais concorda, mas jamais vai poder usar um argumento de autoridade para provar tal tese. Só isso.

Será que todo comportamento é teleológico? Eu não vou ficar pensando em exemplos que desmintam a proposição que você citou. Mas será isso uma verdade? Pensemos no seguinte. Alguns estudiosos da epistemologia sustentam que as crenças não são passíveis de controle consciente. As, digamos, “crenças” que controlamos, podem ser chamadas de adesões. Suponhamos que uma pessoa age sob o efeito daquilo que ela não pode controlar ou aderir, podemos dizer que se trata de um comportamento teleológico, ou seja, que tem uma finalidade? Outra coisa que achei bastante curiosa foi sua compatibilização de ações ao mesmo tempo inconscientes e teleológicas. Não acho que uma ação inconsciente pode visar algo. Resumindo: se tudo fosse uma questão de adesão consciente, eu concordaria com essa tese. Mas há quem defenda que nem tudo é dessa forma, e isso, acho, compromete a visão teleológica que você apresentou. Pode ser verdade? Pode, mas acho que é algo bastante movediço para se fundamentar.

2 de abril de 2009

Orwell sempre atual

Resenha do ensaio publicado em 1946 que recebeu o nome de "A Política e a Língua Inglesa". O texto pode ser encontrado na coletânea "Por que escrevo e outros ensaios", da editora Antígona e tradução de Desidério Murcho.  
George Orwell, ao longo de seus 46 anos de vida, destacou-se como jornalista, romancista e ensaísta. No Brasil ficou conhecido como autor de “A Revolução dos Bichos” e “1984”, livros em que denuncia de forma caricatural, no caso da primeira obra, e pungente e escatológica, na segunda, os regimes totalitários – com claríssimas referências ao sistema soviético. Orwell foi um dos poucos intelectuais nos turbulentos anos 30 e 40 a denunciar abusos como o stalinismo quando boa parte da intelectualidade européia fechava os olhos aos violentíssimos governos praticados pelos chefes vermelhos do leste. Faz-se necessário, contudo, pontuar que Orwell partilhava de uma visão de mundo socialista. Porém, claro, um socialismo não totalitário. 
Em um de seus vários ensaios, “A Política e a Língua Inglesa”, de 1946, o autor alerta para o mau uso desta língua e o relaciona a um “colapso geral” vivido pela sociedade da época. Orwell vê um assustador contexto em que a língua torna-se feia e imprecisa, porque os [nossos] pensamentos são tolos, mas o desmazelo com a [nossa] língua permite mais facilmente que tenhamos pensamentos tolos. Qualquer semelhança com o Brasil não vai ser nenhuma coincidência, sobretudo no discurso político – como será visto. 
Orwell cita alguns exemplos da empulhação a que foram submetidos os leitores. Segue um caso ilustrativo atribuído ao professor Lancelot Hobgen:
Acima de tudo, não podemos jogar as sete pedrinhas com uma bateria de expressões que prescrevem colocações egrégias de vocábulos como o Básico carregar uma cruz em vez de agüentar ou ficar perdido em vez de confundido.
Para Orwell, a prosa em língua inglesa sofreria de dois principais males: o bafio de imagens e a falta de precisão. O autor ou quer dizer algo e não consegue exprimi-lo, ou diz inadvertidamente outra coisa, ou é quase indiferente à questão de saber se suas palavras querem ou não dizer alguma coisa.
Didático, Orwell enumera outros truques usados pelos autores para evitar a construção de um texto coerente:
Metáforas agonizantes – Se uma metáfora nova ajudar a evocar em imagens aquilo que se quer passar, há aquela classe de metáforas que o autor - mesmo sem ter a mínima noção de seu significado – usa para evitar o trabalho de tentar ser claro e original. “Tocar os sinos da mudança”; “empunhar a clava”, “pescar em águas turvas”, “marchar em uníssono” são alguns exemplos de metáforas desnecessárias usadas pelos autores. Várias dessas metáforas mudam de significado ao longo do tempo. E isso mostra o desinteresse dos autores em pesquisar sobre o que estão querendo dizer. 
Muletas verbais – Em vez de se utilizar verbos e substantivos corriqueiros, opta-se pelo mais difícil: florear, evidentemente, o que poderia ser simples e direto. No lugar de “fundamenta”, “origina”, “vigora” usam-se expressões como “dá fundamentos para”, “dá origem a”, “entra em vigor”. Segundo Orwell, a tônica dominante é a eliminação de verbos simples. Os lugares-comuns como “deixa muito a desejar”, “não se pode esquecer”, “conduzido a uma consideração satisfatória” também são criticados pelo autor de 1984. Quem presta atenção sabe que o discurso corporativo é cheio de lugares-comuns.
Dicção pretensiosa – São palavras usadas para dar a um discurso tendencioso uma impressão de imparcialidade científica. Para tanto, palavras como “elemento”, “indivíduo”, “primário”, “constituir”, “eficaz” podem aparecer para mascarar opinião. Para dignificar o que Orwell chama de processos sórdidos da política internacional, palavras como “épico”, “histórico”, “triunfante” fazem da mais infame das atrocidades um belo exemplo de coragem e vitória. Além de criticar o discurso arcaico que tem por objetivo glorificar uma guerra (estandarte e couraçada, por exemplo, seriam expressões usadas para tal), são citados os desnecessários estrangeirismos anexados à língua inglesa. Para os maus autores, os estrangeirismos, sobretudo os de origem grega ou latina, passariam mais grandiloqüência. Procurar uma palavra comum na língua natal, claro, é sempre um caminho tortuoso. 
Palavras sem significado – O escritor cita que, principalmente nas críticas de arte, é bastante comum encontrarmos longas passagens que não querem dizer absolutamente nada. O que poderia ser objetivo ou inteligível cai em um mar abstrato de masturbação lingüística que só serve para elevar o ego do autor. Se, evidentemente, o autor entender o que ele próprio escreve. Palavras como “morto”, “sentimental”, “vitalidade” são usadas com freqüência sem nenhum sentido. O uso de palavras políticas é igualmente obscuro. Usa-se uma palavra como democrático, por exemplo, para elogiar um país. Porém não há qualquer definição unânime sobre a palavra, o que a torna usada com muita freqüência de modo desonesto.
No campo da política, o discurso e escrita nada mais são do que a pura defesa do indefensável. Já que de modo objetivo e com palavras que invoquem concretamente o horror dos processos políticos quase ninguém aceitaria as barbáries, a saída é apelar para eufemismos. No lugar de roubam-se as quintas a milhões de camponeses, que são obrigados a arrastar-se penosamente pelas estradas apenas com o que conseguem carregar, a isto chama-se transferência da população ou retificação das fronteiras. Eis um bom exemplo de como se maquiar o horror. 
Orwell defende que o caos político está diretamente associado ao declínio da linguagem. A simplificação do inglês (e isso se estende a qualquer língua) é uma maneira segura de escapar das piores tolices. A simplificação deveria, para o escritor, chegar ao ponto em que quando se fizer um comentário estúpido, a estupidez da fala se tornaria manifesta. Evidentemente, conclui, não se pode mudar de uma hora para a outra todos os vícios e bobagens adquiridas durante anos nas mais variadas espécies do discurso, mas começar a mudar os próprios hábitos já seria um excelente começo.