4 de junho de 2009
Resenha e discussão
30 de maio de 2009
Teatrinhos e sujinhos
28 de maio de 2009
A vergonha na cara foi ali tomar um café e disse que não volta
Resenha de A Volta do Idiota, de Montaner, Mendonza e Llosa
Odisséia Editorial, 2007, 238 pp.
No parágrafo de encerramento do Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano, Plinio Apuyelo Mendonza, Carlos Alberto Montaner e Álvaro Vargas Llosa sentenciam com certa tristeza a própria derrota perante a idiotice ideológica que se espalhara na América Latina. Disseram isso há 13 anos. Infelizmente, não poderiam estar mais certos. A parte final dos anos 90 e os primeiros anos após a virada do século presenciaram um retorno vigoroso dos populistas de esquerda nos países latinos. As velhas bravatas nacionalistas, antiamericanas e anticapitalistas estavam de volta. E não é que o povo acreditou na conversa? Como consolo, a trinca de ases que assinou o Manual não deixou os acontecimentos passarem como um ônibus que não pára no ponto. Com a mesma pena crítica e ao mesmo tempo divertida lançaram no mercado, em 2007, A Volta do Idiota.
Novos tempos, novos idiotas. Antes tínhamos Fidel Castro como protagonista. Agora temos Hugo Chávez no papel capital. O presidente venezuelano é a personagem principal de A Volta. Descrito pelos autores como o "melhor aluno” de Castro, Chávez reúne com destreza as características que um idiota exemplar deve conter. Para azar dos venezuelanos, o autoritarismo figura entre tais características. Segundo A Volta, no ano de 2004 o presidente venezuelano aprovou de maneira inconstitucional o aumento de 20 para 32 cadeiras no Supremo Tribunal de Justiça. Evidentemente, a medida acarretou uma maioria favorável a Chávez no judiciário. Nem fez questão de disfarçar: assim que o magistrado eleito para presidir a corte tomou seu posto, declarou que “todo juiz que emitir julgamentos contrários aos princípios revolucionários será destituído e sua sentença anulada”.
Aparelhar o judiciário pareceu não bastar. Os delírios do simpático presidente causaram uma verdadeira confusão na economia daquele país. O livro nos conta que a ingerência econômica de Hugo Chávez provocou uma desvalorização de astronômicos 292% na moeda venezuelana em um período de apenas sete anos. Não se pode negar que é uma marca verdadeiramente prodigiosa. No mesmo período, o México teve uma queda de 16% (marca insignificante perto da venezuelana). Pelo visto, não dá para colocar a culpa nos EUA. Com uma economia em frangalhos, a Venezuela ficou em situação desfavorável para resolver problemas graves como a pobreza.
Com uma sacada inteligente, o trio de escritores divide a esquerda latino-americana em duas principais frentes: vegetariana e carnívora. A primeira pode ser descrita como um esquerdismo moderado, atento às demandas da economia mundial, respeitosa aos mercados e avessa ao radicalismo jurássico dos barbudos furiosos da velha guarda. O principal exemplo dessa esquerda serena é a presidente do Chile Michelle Bachelet. Com uma gestão predominantemente liberal, Bachelet ajudou o país a conquistar índices cada vez melhores na economia (aumento da produção) e na área social (redução da pobreza). Já a esquerda carnívora, capitaneada por Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales, parece ainda rezar na cartilha dos tempos da Guerra Fria. Presa em uma espécie de radicalismo anacrônico, desconfia de tudo que tenha cheiro de livre mercado, livre iniciativa e abertura ao capital externo.
No decorrer da obra, os autores nos mostram exemplos de países que conseguiram prosperar com uma agenda responsável de reformas políticas e econômicas. Em uma análise curta (porém cuidadosa) do que fizeram Espanha, Irlanda, o já citado Chile e alguns outros, a nossa trinca de ases argumenta que é possível o desenvolvimento adotando um modelo honestamente liberal. Indo, portanto, na contramão do ideário quase elevado ao posto de evangelho em nossas terras.
Por fim, a leitura de A Volta do Idiota nos faz questionar certos dogmas repetidos até a exaustão nos círculos pensantes da América Latina. Da mesma forma que o Manual, provoca a reflexão sobre nossos próprios erros ao longo da história. Para deixar a idiotice de lado definitivamente, o livro apresenta no último capítulo uma espécie de penicilina ideológica: a sugestão de obras fundamentais para a cura da idiotia. Hayek, Arthur Koestler e Karl Popper estão entre os indicados. Embora a leitura da “saga do idiota” seja deliciosa, espero que Mendonza, Montaner e Llosa não precisem escrever mais um livro. Que a sentença por eles decretada no fim do Manual descanse em paz algum dia.
Leitura imperdível.
4 de maio de 2009
Miopia e astigmatismo
Por Yoani Sánchez: http://www.desdecuba.com/generaciony
Ponho os óculos e lanço um olhar à cidade desmantelada onde vivo. Com estes cristais coloridos da esperança, meu coração bombeia com mais tranquilidade, sem sobressaltos. Graças a eles compreeendo que não subo quatorze andares devido a ineficiência estatal - incapaz de montar o elevador depois de cinco meses - mas sim que sou uma ecologista perfeita disposta a consumir somente meu combustível humano. Com este novo vidro com que olho tudo, percebo que no meu prato a carne se ausenta, não pelo seu altíssimo preço no mercado senão porque amo os animais e evito o sofrimento e o sacrifício deles.
Careço de um conexão à Internet em casa, porém as rosadas lentes escondem de mim que este serviço seja exclusivo para funcionários e estrangeiros residentes. Talvez queiram proteger-me das “perversões” da rede, digo a mim mesma, tal e como faria o ridiculo Candido de Voltaire. Assim comprovei, por um brevíssimo tempo, ver palácios no lugar de ruínas, líderes que nos levam à vitória quando na realidade nos conduzem ao precipício e homens que se hipnotizam com minha cabeleira, ainda que eu saiba que me seguem para vigiar-me.
O problema começa quando tiro as lentes de candidez e olho o que me rodeia, com as reais cores da crise. A dor na panturrilhas volta, como resposta às grandes escadarias; começo a sonhar com uma bisteca e um modem piscando torna-se um desejo quase erótico. Jogo os óculos do otimismo da minha varanda, talvez haja alguem lá em baixo que contudo prefira usá-las, que ainda queira distorcer a realidade com eles.
Texto de 23 de março de 2009
28 de abril de 2009
Luta pela liberdade no paraíso das esquerdas
24 de abril de 2009
Camisinha? Aí não, é demais
13 de abril de 2009
Anátemas do mundo moderno
"É proibido pensar". O título da boa música do compositor protestante João Alexandre me lembra – mais uma vez! – George Orwell. No influente romance 1984 o autor menciona a Polícia do Pensamento, que, de helicóptero, sobrevoa as casas para bisbilhotar a vida dos cidadãos. É bom lembrar que o romance de Orwell retrata uma sociedade totalitária. Dessa forma, o partido é a razão de viver da população, a prostituição semântica e a falsificação histórica constituem a regra e o culto à personalidade de um ditador é compulsório.
Mas e daí? Não vivemos em um estado totalitário. Não há nenhuma polícia do pensamento. Não há um ditador vitalício com a cara estampada em todas as esquinas. É óbvio que as três proposições anteriores são verdadeiras. Isso, contudo, não é suficiente para eliminar a existência de certo patrulhamento (informal) que se encrava justamente no pensamento. O alarme soa quando se constata que determinados valores são - só por serem, digamos, moderninhos - colocados em um patamar de superioridade intelectual. Adota-se qualquer entulho como vanguardista e a predicação positiva é quase imediata. Desse modo, tudo aquilo que vai em sentido contrário é, por definição, retrógrado ou, para usar o velho clichê, reacionário.
De fato, pensar contra a corrente está ficando cada vez mais arriscado. É só ver a conotação imediata que palavras como “família”, “princípios” e “fidelidade” possuem atualmente. São tidas como antigas e anacrônicas. É uma espécie de ditadura velada de valores (ou da falta deles) que está em voga. Não ser moderno virou anátema. Não ser subjetivista se tornou motivo de repreensão. A palavrinha “moral” virou palavrão. Não ser politicamente correto transformou-se imediatamente em reacionarismo ideológico. Tudo isso em nome de um progressismo idiota que domina a cabeça de boa parte da nossa intelligentsia. Um vírus cultural pretensamente tolerante e inclusivo que na prática é intolerante e exclusivo com o diferente. Algo como um relativismo não relativo em que os que não comungam dos dogmas da tal tolerância e inclusão já estão errados - a priori.
O vídeo da música, logo abaixo, é uma crítica aos atuais modismos que vem assolando há tempos a comunidade evangélica. Mas a mensagem pode ser transportada para outras esferas. A dica da música veio de Samuel Barbi, um grande e sensato amigo.
