18 de março de 2009

Resposta à uma "adevogada", que preferiu não se identificar

Em primeiro lugar, tanto o texto “Humanas em universidades” quanto o que postei recentemente - “Adevogados S.A” - são humorísticos. Pensei que os nobres colegas iriam perceber isso. Como não perceberam, tive de remediar e colocar um aviso tardio no início do famigerado texto que me rendeu toda essa polêmica. A reação foi desproporcional. Desconfio que algumas pessoas se sentiram dentro de alguns estereótipos indicados. Mas isso me é de uma irrelevância absurda. Segundo, e agradeço o elogio, o fato de o blog possuir textos em que verso sobre assuntos sérios não faz dele um veículo monolítico. Eu posso começar a só contar piadas aqui se quiser. Posso começar também a criar contos pornográficos. Pode ser até uma boa idéia. Vou passar a ler Syang.

Sobre minha “cômoda posição de comediante” é de fácil dedução que é em relação aos dois textos que citei acima. Sobre os outros, não. Prova disso é que o texto “Bolsa Militância e a Sociedade das Idéias Mortas” gerou certa polêmica e eu jamais o tratei como brincadeira.

Mas voltando... Eu fiz uma graça – eventualmente pesada – com esses estereótipos e não me sinto nem um pouco obrigado a ficar justificando os motivos. Além, é claro, do conteúdo humorístico, os textos refletem também um pouco como eu vejo muitas pessoas dentro dos referidos departamentos. E é um direito expressar isso quando eu bem entender. Os textos soam preconceituosos? Sim. E daí? Mesmo que refletissem integralmente o que penso, eu ainda teria o direito a ter tais preconceitos. Por falar em preconceitos, eu não gosto de comunistas, teatro de rua, filmes engajadinhos, hippies, calças quadriculadas e mais um monte de coisas. Reservo-me o direito de não gostar dessas coisas sem ter a necessidade de justificar.

E não, eu não pretendo seguir na carreira humorística. Confesso até que isso já me passou pela cabeça. É um meio bem divertido de se ganhar dinheiro. Mas infelizmente eu não sou tão engraçado assim. E quem disse que eu nunca usei um pretenso humor para descolar “uma trepadinha com alguma desavisada?” A notícia ruim é que eu não fui suficientemente engraçado com minhas piadas. A “desavisada” não caiu na conversa e preferiu sair com o estudante de direito da mesa. Mas são águas passadas. Hoje, por uma maravilhosa ironia, namoro com uma estudante de, oh céus, direito. Meu conselheiro espiritual disse que é uma espécie de karma. Que seja, maravilhoso karma! Aliás, três dos meus melhores amigos são estudantes de direito.

Sobre seus conselhos humorísticos, agradeço. Já comecei a decorar algumas piadas. Já devo ter umas cinco do Ary Toledo na cabeça. E isso é sério!

Uma coisa que você disse eu certamente vou acatar. Sempre quando eu fizer uma piada ou um texto satírico, vou colocar um aviso antes. E não porque eu ache que deva fazer isso, pois eu não devo, mas para evitar que encham meu maravilhoso saco. No mais, se alguém leu essas sátiras e incorreu em pensamentos arrogantes ou preconceituosos, é problema de criação vinda de papai e mamãe. Eu não pratico autocensura. Não me pauto pelos outros. E não vou passar a me pautar pelos outros só porque eventualmente alguém leu meu blog e começou por acaso a detestar calças quadriculadas. E aí entro em outro ponto que você citou...

Sobre fazer piadas com “feridas históricas” e “traumas humanitários”, você provavelmente está se referindo a piadas racistas. Pelo menos foi o que eu entendi. Não sei se você notou, mas eu não fiz piadas racistas. E isso torna essa advertência meio sem sentido. O fato de sacanear alguns tipinhos não faz com que eu aprove piadas racistas. Simples assim.

Um filósofo tem respostas para tudo, partindo de estereótipos e preconceitos? Ou, justamente eles só sabem que nada sabem?

Nem uma coisa nem outra. Se um filósofo sério, no seu trabalho filosófico, parte de estereótipos e preconceitos, provavelmente não vai ser levado muito em consideração. Numa mesa de bar ou no campo do humor a coisa muda. Por outro lado, se eles só sabem que nada sabem, refutam-se a si mesmos, pois eles contradizem a frase justamente por saber algo

Ah, estou sempre aberto ao diálogo. Mas eu prefiro que não seja com anônimos. Um dos poucos a mostrar a cara e reclamar pessoalmente comigo sobre o texto foi o estudante de direito que cito no último escrito satírico. Se alguém quiser conversar comigo, que converse, mas adoraria que me mostrasse a carinha.

Ah, você disse algo sobre o eventual poder dos meus textos. Acertou. Quero mesmo é dominar o mundo :) 

Abraços e, sem cinismo, obrigado pelo recado. Mas da próxima, gostaria que se identificasse.

Cristo, acabei me justificando demais. 

14 de março de 2009

Adevogados S.A

Acho que nunca mais conto uma piada. Pior ainda é escrever textos satíricos. Estes, nem em pensamento. Depois que publicaram no departamento de filosofia um texto satírico de minha autoria sobre estereótipos, algumas pessoas ficaram realmente infelizes. Teve gente que pediu que eu fundamentasse as piadas. Era o que faltava. Além de explicar as piadas, agora tenho de fundamentá-las. Quando me contarem piada de português, vou pedir fundamentações científicas que mostrem que os lusos possuem, digamos, uma "lógica diferenciada". Ora, vão à merda.
Um dos indignados - que inclusive pregou no mural uma resposta ao texto "Humanas em universidades", pivô da confusão - condenou o texto por ser ofensivo e preconceituoso. Ele só se esqueceu que também usou de certos preconceitos ao escrever um texto condenando o preconceito. Juro que fiquei com pena das "comadres" que ele cita querendo compará-las a mim. Eu não faria isso. Respeite as comadres!
O indignado é estudante de direito. Só um estudante de direito pode começar um texto de resposta a uma sátira invocando a Constituição. Eu me senti lisonjeado. O rapaz conclamou o artigo 5º para responder um texto humorístico. É de uma grandiloquencia ímpar. Acho que, se em vez de um texto satírico, eu tivesse escrito uma receita de pudim, o garoto pregaria no mural as resoluções sanitárias em vigência no país.
Eu já sacaneei os estudantes de direito e/ou advogados? Não? Vou quebrar minha promessa. Essa é a hora.
ADVERTÊNCIA AOS IDIOTAS: texto meramente humorístico e não dotado de validade científica. 
Dentro dos departamentos de humanas, mas em áreas mais aristocráticas, existem os estudantes de direito. Os estudantes de direito costumam ser figurinhas bem interessantes. Eles têm pose. Muita pose. Afinal, sabem exatamente como acabar com você. Alguns deles, para mostrar erudição, citam artigos, leis, incisos, parágrafos únicos, emendas e qualquer chatice do juridiquês até em mesas de boteco. Fazem questão de ser bastante herméticos. Quando ninguém entende nada, é mais fácil enganar. Dá até para às vezes descolar uma trepadinha com alguma desavisada. Eu já disse que eles gostam muito de latim? Pois é, estudante de direito que não goza ao repetir aquelas lindas expressões em latim não é estudante de direito. Expressões como Data Venia, In Absentia, Mutatis Mutandis, Lex Scripta e as já clássicas habeas corpus e habeas data fazem a alegria dos aspirantes. Não tem como não se sentir mais bem dotado sexualmente após aprender essas pérolas. Aí se formam...
E começam os problemas de verdade. Se já se achavam proto-deuses, agora têm certeza de sua divindade. Quando falam, estão em um pedestal. Quando escrevem, parecem fazer questão de que ninguém entenda o que está escrito. A escritra jurídica e os processos jurídicos são verdadeiramente kafkianos. Mesmo assim tem advogado que acha que, no Brasil, a justiça funciona direito. É claro que é corporativismo de classe. Num país em que processos simples podem demorar décadas e quase ninguém é preso por nada, isso soa como piada de advogado feita por advogado. Ah, claro, eu não posso me esquecer: com exceção da área de saúde, os advogados são os únicos profissionais que gostam de ser chamados de doutor. No Brasil, qualquer bacharel quer ser chamado de doutor. Já mencionei as famosas carteiradas? "Sou advogado, sou advogado!", gostam de repetir quando, por exemplo, parados numa blitz. Como se isso significasse alguma coisa. Chega. Mais dois comentários e posso ser processado.
O Brasil ainda guarda a velha mania de valorizar demais advogado. Somos caipiras e subservientes até nisso. Nosso olhar de baixo para cima reflete os tempos em que graduação de respeito era ou em medicina ou em direito. Sempre tivemos um tom solene de mais no trato de advogados. Pelo visto, eles gostaram da idéia. Tanto que se acham doutores antes mesmo de defender um mestrado. É advogado de mais, pose de mais, beca de mais, faculdade de direito de mais, terninhos em ônibus de mais, penteadinhos de mais e justiça de menos. 
Céus, fiz mais uma sátira. E agora lidando com perigo real. Que medo :)

9 de março de 2009

Agora eu sou Glorinha Kalil e pior que o Clodovil...

Alguém publicou no mural do Departamento de Filosofia da UFOP meu texto "Humanas em universidades", do dia 12 de setembro do ano passado. Pelo visto, teve gente que não gostou. Já me chamaram de Glória Kalil e disseram até que eu estava pior do que o Clodovil. Se essa gente escutasse as dicas que a simpática da Glorinha Kalil dá no Fantástico, talvez se vestisse com um aspecto menos sujo e circense.
É possível também que até o Clodovil ajude. O estilista e político certamente recomendaria aos barbudinhos revolucionários o hábito de tomar mais de três banhos por semana. Se se limitassem somente à poluição mental, tudo bem. Ruim mesmo é quando a gente começa a sentir o cheirinho de longe. Dizem que o próprio Che Guevara não era muito chegado nessa coisa de higiene. Até nisso imitam o guru argentino.

3 de março de 2009

Ditadura? Sim, mas só de um lado

Causou bastante indignação editorial publicado na Folha de S. Paulo em que o veículo classifica a ditadura militar vivida no Brasil de “ditabranda” - que, de fato, é um termo de gosto discutível. Várias cartas foram enviadas à redação do jornal repudiando o uso da expressão. As cartas lembravam os horrores e abusos cometidos durante o período militar. Tudo muito normal até aí. Ocorre que há uma grande falta de compreensão sobre a intenção da palavra “ditabranda”. Ao se ler o editorial – Limites à Chávez, 17 de fevereiro -, fica bastante claro que o termo é comparativo. Não é muito difícil de perceber. É só tomar nota do número de cadáveres produzidos pela ditadura tupiniquim e comparar com as ditaduras que vigoraram no Chile e na Argentina, por exemplo. O porquê do "branda" não demora a aparecer. Se compararmos, porém, nossa ditadura com os regimes de esquerda, a distância se torna ainda mais superlativa e nossos militares, como disse Roberto Campos, tornam-se meros escoteiros mirins.

Ao que parece, teve intelectual da USP que não percebeu isso. A professora da faculdade de educação Maria Victória Benevides vociferou: Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de ‘ditabranda’? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar ‘importâncias’ e estatística... Além de não ter percebido o óbvio, a acadêmica ainda tenta relativizar as violações de “direitos humanos”. Isso significa que os regimes de Castro, Mao e Stálin estão no mesmo nível de brutalidade da ditadura militar brasileira. Pura estratégia. Quando se tem um peso de cadáveres muito maior nos regimes autoritários de esquerda, a saída é relativizar. O cinismo fica evidente em números. Somente Stálin matou cerca de 20 milhões. O regime de Castro já matou cerca de uma centena de milhares. Além de Maria Victória, o professor Fábio Konder Comparato, também da USP, escreveu indignado à Folha clamando por respeito à pessoa humana. Eu adoraria ver o professor Konder fazer esse escarcéu em nome da dignidade das “pessoas humanas” em Cuba.

Eis a respsota da Folha às reações de Benevides e Comparato: A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua ‘indignação’ é obviamente cínica e mentirosa.

Por algum motivo, a professora Maria Victória parece ter ignorado a réplica do jornal. Talvez ela não entenda o que ocorre em Cuba como uma ditadura. Se não é uma ditadura, é o que? Parte dos nossos intelectuais de esquerda - como Maria Victória, Fábio Konder, Marilena Chauí, Tarso Genro e Emir Sáder, por exemplo - possui o terrível hábito de lembrar os horrores de nossa ditadura – que realmente ocorreram – e, ao mesmo tempo, se nega a condenar regimes como o cubano ou o que Chávez quer instalar na Venezuela. Aliás, ainda há quem diga que a Venezuela dá aula de democracia. Como se plebiscitos atrás de plebiscitos fossem indicadores de saúde democrática. Das duas, uma: ou esses intelectuais sofrem de uma conveniente amnésia ideológica ou é um caso de duplipensar (expressão criada por George Orwell para descrever a atitude de ser acreditar em duas proposições contraditórias ao mesmo tempo).

Vivemos uma ditadura que foi perversa? É claro que sim. Porém, a choradeira da esquerda intelectual só vai fazer algum sentido e ter credibilidade quando passar a condenar seus ditadores prediletos. A começar por Fidel Castro. Será que topam o desafio? Improvável. Ditaduras são só os regimes autoritários de direita. Ditaduras de esquerda, pelo visto, não são ditaduras.  

1 de março de 2009

Chávez, o ditador de Deus

O caudilho venezuelano Hugo Chávez, não bastasse sua luta messiânica pelo socialismo na Venezuela, resolveu se aprofundar mais em suas quinquilharias intelectuais. Segue o juramento que os ministros venezuelanos tiveram de fazer para jurar lealdade ao ditador:
Juro por Deus que não darei descanso à minha alma, ao meu braço ou à minha mente até que não tenha aprofundado o socialismo de que precisamos, e que acompanharei com lealdade este comandante-em-chefe que Deus nos trouxe para levar adiante o socialismo de que precisamos. Antes morto do que traidor.
Além da avacalhação socialista, Chávez agora invoca uma certa teoria do direito divino para governar. Se foi supostamente Deus quem coloclou Chávez no poder, eis aí o melhor argumento em favor do ateísmo. 

PT, Israel e o ultraje seletivo*

No mês passado, a PUC do Rio assinou um convênio com a Universidade de Tel Aviv para um intercâmbio de alunos. Na opinião de Valter Pomar, secretário de relações exteriores do PT, foi uma decisão equivocada. “Não é época para um acordo desse tipo”, disse Pomar ao jornal israelense Haaretz. Para ele, “seria apropriado aplicar ao governo de Israel o mesmo tratamento dado ao governo da África do Sul durante o apartheid”, isto é, o boicote.

Pomar deixou claro que falava em seu nome, e não em nome do PT – provavelmente porque, na última vez em que falou em nome do partido para esculhambar os israelenses, comparando-os aos nazistas, foi devidamente desautorizado por petistas proeminentes, como Paul Singer, Marta Suplicy e Tarso Genro.

A idéia de Pomar não é nova. Vários movimentos de esquerda em todo o mundo defendem o boicote a Israel, supostamente em nome dos direitos dos palestinos, ao mesmo tempo em que se solidarizam com regimes despóticos que reprimem minorias e oposicionistas em geral.

Um exemplo é o Irã. Presidido por Mahmoud Ahmadinejad, chefe de governo convidado a visitar o Brasil pelo presidente Lula (que é do partido de Pomar), o Irã condena homossexuais à morte, adúlteros a apedrejamento e minorias religiosas à prisão. Conforme diz a Anistia Internacional, 30 anos depois da Revolução Islâmica a violação dos direitos humanos persiste no Irã. Nem por isso, Valter Pomar pediu boicote aos iranianos.

Outro exemplo é a Síria. Feroz ditadura desde 1970, que não tem problemas em mandar assassinar adversários no Líbano, o governo sírio tem sido cortejado pelo presidente Lula (que é do partido de Valter Pomar). Segundo a Anistia Internacional, a Síria é pródiga em perseguição, tortura e execução de presos políticos: “Ser um politico ou ativista de direitos humanos na Síria requer coragem – o governo é intolerante com a dissidência”. Não há registro de que Valter Pomar tenha feito alguma uma campanha de boicote contra a Síria.

Podemos falar também de Cuba. O regime cubano, como sabe todo aquele que foi razoavelmente alfabetizado, há 50 anos promove repressão a dissidentes, tortura de presos e autoritarismo explícito. Diz sua Constituição, em pleno vigor, que “nenhuma das liberdades reconhecidas para os cidadãos pode ser exercida se contrariar a existência e os objetivos do Estado socialista, ou se contrariar a decisão do povo cubano de construir o socialismo e o comunismo; violações a este princípio podem ser punidas pela lei”.

Apesar disso, o presidente Lula (que é do partido de Valter Pomar) classificou o ex-ditador Fidel Castro de “único mito vivo da história da humanidade”, e não se tem notícia de que Pomar tenha tentado promover algum boicote contra Cuba. Pelo contrário: na mesma ocasião em que fez a apologia do comandante, o presidente Lula (que é do mesmo partido de Pomar) disse: “Respeito muito que cada povo decida seu regime político – esse negócio da gente ficar aqui no Brasil dizendo que bom é assim, bom é assado – vamos deixar que os cubanos cuidem do que eles querem na política”. Então estamos combinados: o que o governo cubano faz em relação a seus projetos tirânicos de poder é problema dos cubanos; já o que o governo israelense faz em relação a sua segurança é problema dos petistas.

Nada disso exime Israel de críticas. Muito pelo contrário. Israel merece ser criticado duramente pelo que faz com os palestinos – recentemente, por motivos que só um burocrata insano é capaz de explicar, os israelenses vetaram a entrada de um carregamento de macarrão em Gaza. Isso mesmo, macarrão. Como ironizou um congressista americano que estava em Gaza na ocasião: “Alguém já tentou matar você com um pedaço de macarrão?”.

No entanto, promover boicotes a Israel, e apenas a Israel, enquanto se faz vista grossa às violações cometidas pelos “companheiros” em outros países, é mais do que ignorância. É anti-semitismo mesmo.

*Texto de Marcos Guterman, blogueiro do Estadão

14 de fevereiro de 2009

Nossa pequenez, nossa grandeza e uma homenagem para alguém que mais parece um anjo

Se eu te perguntar, anjo, onde você está agora, provavelmente vai responder que está em Brasília. Mais: se eu te perguntar as coordenadas do lugar onde está, isto é, latitude e longitude, algum programa ou aparelho te dará a informação e você, meio a contragosto devido a minha impertinência, vai me passar os dados. Durante esse processo, já parou para se perguntar qual é realmente o seu lugar no espaço? Voltando a fita. Você está em Brasília, por conseqüência no Distrito Federal. Assim, está na região centro-oeste do Brasil, país que se situa na América do Sul, que, por sua vez, faz parte de um hemisfério daquilo que chamamos de Terra (que era para ser chamado de Água; dê uma olhadela num globo terrestre e veja porque). E o raciocínio acaba por aqui. Acaba mesmo? Para começar, vamos falar um pouco sobre vaidade.

Voltemos a fita agora em, digamos, séculos ou milênios. Mesmo nesses tempos, sempre nos achamos uma espécie bastante especial. Somos por natureza seres muito vaidosos, de modo que se você passa 45 minutos na frente do espelho corrigindo algum pequeno detalhe nos cílios, é possível que haja uma explicação evolutiva para isso. Antes de prosseguir com o tema desse texto – que é mais ou menos nosso espaço no espaço – vamos a uma piadinha darwinista. Há milhares de anos, é bem provável que um dos critérios para um macho escolher a fêmea fosse algum diferencial estético que ele julgasse positivo nela. No caso dos homens, esse diferencial seria a possibilidade da manutenção genética. Talvez seja por isso que, a exemplo das moças vaidosas, alguns machos procuram ficar bastante fortes em academias. Algo mudou? Não fugimos muito do que realmente somos. Os machos de academia só se esquecem que atualmente força física não é o único atributo que garante sobrevivência.

Adiante. Nossa vaidade, além de penteados de cabelo e levantamento de peso, produziu algumas peculiaridades bastante engraçadas e algumas vezes perigosas. Costumávamos nos achar o centro de todo o Universo. Aristóteles, por exemplo, acreditava que era o céu que se movia. A Terra ficava parada. Muito cômodo! O cosmo tem todo o trabalho e nós ficamos aqui, parados, só observando. Ptolomeu, mais ou menos no mesmo período, chegou até a elaborar um sistema que dividia o céu em várias esferas que se moviam. No meio dessas esferas ficava a Terra. Com o passar do tempo, o cristianismo adotou essa visão chamada geocêntrica e isso adquiriu contornos teológicos. Bastante simples: é muito conveniente acreditar que somos o centro do Universo e termos, assim, certa proximidade exclusiva com Deus. A Igreja oficializou o geocentrismo e estávamos conversados.

Começa então a demolição das nossas vaidades. Ali pelo século XV, um cientista chamado Nicolau Copérnico sugeriu uma idéia um pouco extravagante. Segundo ele, a terra girava e as estrelas estavam paradas. Ele também chegou a dizer, corretamente, que nosso planeta girava em torno do Sol. Dessa forma, perderíamos toda a exclusividade cósmica. Não passaríamos de um planetinha qualquer em algum lugar da galáxia girando em torno de uma estrela também não muito especial. Um pouco depois, e sigo aqui a ordem temporal sugerida pelo grande Carl Sagan em Variedades da Experiência Científica, apareceu a idéia de que as estrelas eram sóis distantes que tinham também planetinhas girando em torno de si. Pronto! Além de a Terra ter deixado de ser o centro do sistema solar, tinha deixado de ser central também na galáxia, como costumávamos achar. O saudoso escritor britânico Douglas Adams disse com graça que estamos em alguma borda bem brega da galáxia. Anjo, você vai concordar comigo que é um duro golpe na vaidade humana. Como assim? Não estamos no centro de tudo? Não pode ser!

E a pancadaria em cima de nossas vaidades continuou. Como a Terra já não era o centro do Universo, a idéia corrente era que ela, pelo menos, tinha pouco tempo de vida desde sua criação. O motivo dessa teoria também é simples: quando diminuímos o tempo da terra, aumentamos automaticamente nosso grau de importância nela. Um teólogo, em algum ponto da Idade Moderna, chegou a declarar a partir de alguns cálculos baseados em genealogias bíblicas que a Terra havia sido criada 4004 anos antes de Cristo. Ele disse até o dia: um simpático domingo. Provavelmente ensolarado e bom para curtir uma praia. Para a infelicidade geral das nossas vaidades, as evidências sugerem que a Terra possui cerca de 4,5 bilhões de anos. Isso nos torna infinitamente insignificantes em escalas temporais. É como se tivéssemos aparecido no último milésimo de um dia.

Mas nossa vaidade parece ser infinita e não desiste! Já que não éramos o centro do universo e nosso planeta não era tão recente quanto imaginávamos, voltamos os olhos para nós mesmos. Julgávamos ser uma parte especial da criação. Achávamos que éramos bem diferentes dos animais. Porém, para de novo deixar algumas pessoas tristes, apareceu na Inglaterra um barbudo chamado Charles Darwin com uma teoria simples, elegante e devastadora. A idéia pode ser simplificada da seguinte forma: as espécies foram evoluindo ao longo do tempo de acordo com as condições do meio. As que tivessem mutações que facilitassem sua permanência no meio, conseguiriam, dada essa vantagem, propagar seus genes. Outras, com menos sorte, seriam extintas por causa da desvantagem comparativa. Isso recebeu o nome de Seleção Natural. A Teoria da Evolução das Espécies foi publicada em 1859 num período de grande conservadorismo religioso. Recapitulando: achávamos ser o centro do Universo. Não somos. Achávamos moradores de uma terra jovem criada por Deus. Não somos. Achávamos uma espécie absolutamente especial e, infelizmente, também não somos. Em algum lugar na cadeia evolutiva, Aline, meu anjo, você tem algum ancestral em comum com uma barata. Desagradável, não?

Que tal mais alguns golpes na nossa vaidade? Vamos brincar de nos sentir pequenos. Bem pequenos. Ao acabar esse parágrafo, juro, se sentirá uma bactéria. Somente em nossa galáxia, existem 400 bilhões de estrelas. Nosso Sol é apenas uma. A quantidade de galáxias além da nossa é da ordem de trilhões. E em cada um desses trilhões de galáxias, o número de estrelas é similar ao que vemos na nossa. O que significa, usando uma indução, que existem planetas em uma escala exorbitante. Daqui a aproximadamente cinco bilhões de anos, o Sol se expandirá e, por causa da catástrofe gravitacional, irá engolir a Terra. Isso significa que a Terra é mais ou menos uma senhora de meia idade, já que está perto da metade de sua vida útil. A distância do Sol até a Terra é de cerca de 150 milhões de km, a medida foi batizada de Unidade Astronômica (mais um sinal de vaidade?). Segundo estimativas, o Universo tem quase 15 bilhões de anos e continua em franca expansão. Dentro de tantos zeros, o que somos? O que significamos?

Significamos muito. Somos raros e, em certa medida que não leve em consideração delírios teológicos, podemos até ser um pouco vaidosos. A astronomia moderna, apesar de engatinhar, jamais encontrou nenhum sinal de vida inteligente em outro lugar. Nenhuma mísera onda de rádio de origem artificial foi recebida pelos inúmeros radiotelescópios espalhados pelo mundo. Nem se quer um “oi, tudo bem?” nossos possíveis amiguinhos verdes mandaram. O fato de haver tanta dificuldade para encontrar vida – inteligente ou não - fora daqui pode significar, no mínimo, que somos improváveis, que a vida é uma exceção, e não a regra. Que devemos cuidar desse planeta como o que ele realmente é: a nossa casa. Portanto, desde um agrupamento de moléculas em algum lugar de outras eras geológicas até o seu nascimento, sim, o seu, Aline Hanriot, temos uma cadeia maravilhosa de improbabilidades que se tornaram realidade. Conclusão: você, nessa cidadezinha em forma de avião, nesse planetinha minúsculo em meio a um Universo incomensurável, é preciosa, é rara. É uma das maravilhas que o Universo pode produzir! O azul dos seus olhos reflete o azul desse planeta, maravilhoso e raro.

Ainda não terminei. Veja isso, anjo: http://www.youtube.com/watch?v=HurA3M_CBJY


31 de janeiro de 2009

Qual a cor da chapa mesmo, camarada?

Segundo o site da revista Carta Capital, militante petista tem 50% de desconto em assinatura. Fosse a Veja concedendo descontinhos para, digamos, filiados ao DEM, o barulho seria grande. Mas do lado vermelho da força pode, e Mino Carta tem prazer em ajudar. 
Para quem duvidar:

27 de janeiro de 2009

Mais Fórum e a justiça de um lado só

O jornal O Globo noticiou que o Governo Federal gastou R$ 120 milhões de reais para a realização do Fórum Social Mundial, que este ano ocorre no Pará. Alguém protestou? Apropriação de dinheiro público para a causa, pode sim senhor. Mais: o Governo do Pará se encarregou de distribuir 600 mil camisinhas para os participantes do evento. Pelo visto, também querem foder com o uso do erário. Tudo muito justo. É em nome da causa. Então tá.
Justiça Cegueta
O ministro da Justiça Tarso Genro concedeu asilo político a Cesare Battisti, condenado por quatro assassinatos na Itália. Battisti fazia parte de uma organização de extrema esquerda quando cometeu os crimes. Se é assim, tudo bem. Quando, em 2007, dois pugilistas cubanos pediram o mesmo asilo político no Brasil fugindo de Cuba, o ministro os extraditou sem pensar. Matou pela causa? Sem problemas, justifica-se. Mas tentar fugir de um país onde a liberdade de ir e vir não existe há 50 anos, aí já não pode.

15 de janeiro de 2009

"Bolsa Militância" e a Sociedade das Idéias Mortas

Por volta do dia 25 de janeiro, um grupo de mais de 40 alunos da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) irá à Belém participar do Fórum Social Mundial. O que você, leitor, tem a ver com isso? Ora, besta, possivelmente é do seu interesse saber que você está pagando boa parte da aventura dos nossos revolucionários contra a globalização, o liberalismo e outros demônios intelectuais de mesmo calibre. Segundo o Departamento de Transportes da Universidade, serão gastos, no mínimo, cerca de R$ 4500 de combustível e mais R$ 2577,50 para os dois motoristas do ônibus. Antes de voltar à aventura de nossos peregrinos, algumas considerações.
O site oficial do Fórum nos conta que existirão discussões “democráticas” a respeito dos temas tratados. É claro que tal “democracia” se reduz à ortodoxia ideológica dos que lá estiverem. Ou seja, coloca-se a mão em cima das bíblias da esquerda e, a partir disso, se discute. Em 2005, um dos principais participantes do evento foi Hugo Chávez, aspirante a ditador da Venezuela. Alguns fatos sobre Chávez: pouco antes da invasão americana no Iraque, o venezuelano teve um cortês encontro com Saddam Hussein. O mesmo Saddam Hussein que usou armas químicas para acabar com boa parte dos curdos. Outro santo que caiu nas graças do venezuelano é Robert Mugabe, o ditador vitalício do Zimbábue ou, como quer Chávez, “guerreiro da liberdade”. Mugabe, em eleições recentes, tinha o hábito de formar milícias para forçar a população a votar e também gostava de eliminar alguns oposicionistas. Recentemente, Chávez, provando o que Orwell chamou de duplipensar, clamou ao mundo que George Bush fosse julgado por crimes de guerra. Com “amigos” como Hussein, Mugabe e, mais recentemente, Ahmadinejad, fica difícil engolir as bravatas humanitárias do venezuelano. Tinha que ser o Chávez mesmo!
E por que tantos fatos sobre Chávez? Ora, um evento que tem como uma de suas principais atrações as idéias de um defunto ideológico como Hugo Chávez deve ser visto com, no mínimo, desconfiança. Além disso, nossos revolucionários universitários, variação daquilo que Mendonza, Montaner e Llosa chamaram com sutileza de “perfeito idiota latino-americano”, devem parar de usar a palavra democracia em seu vocabulário. A revolução socialista solapa qualquer democracia viável por um motivo muito simples: colocando-se o aparato estatal a serviço de uma intitulada classe, o poder ficará eternamente nas mãos dessa classe. O resultado disso pode ser visto em Cuba, onde o mesmo mandatário mandou por quase 50 anos com mãos de ferro. Mais: a revolução solapa qualquer tipo de liberdade econômica. Não à toa os principais representantes da nossa esquerdopatia são antiliberais e estatistas. Ou seja, mais Estado e menos indivíduo: a tradicional obesidade institucional e burocrática que sufoca o espírito empreendedor e beneficia o clientelismo e a ineficiência.
Toda a esquerda é estúpida e retrógrada? Não. Basta olhar para o Chile da presidente Bachelet. Ela viu na abertura do país aos investimentos estrangeiros, na proteção à propriedade privada, na não alteração arbitrária das regras do jogo econômico e na noção de que a iniciativa privada produz mais riqueza que o Estado ótimas chances de gerar renda e, conseqüentemente, menos pobreza. Com a continuação da economia de modelo liberal, o Chile apresenta os melhores resultados da América Latina. Cita-se também o Brasil. Quando Lula, antes líder sindical, chegou ao poder, fez tudo aquilo que não se esperava de um esquerdista radical. Ou seja, agiu segundo o mercado. Pagou a dívida que tinha com o Fundo Monetário Internacional (FMI) – outro monstro que nossa militância odeia sem saber direito o motivo -, terminou o primeiro mandato com um superávit comercial de 40 bilhões de dólares e com uma inflação inferior a 3%. Mesmo com vários escândalos de corrupção em seu governo, conseguiu se reeleger com ajuda do bom desempenho econômico. Qual, então, a reação do nosso militante? Insatisfação, claro. Os amantes do fracasso e do coitadismo não podem ver cifras positivas que rapidamente se levantam em diatribes contra qualquer coisa parecida com eficiência. É evidente que falta muito para a América Latina ter algum tipo de desenvolvimento semelhante às grandes economias liberais. Isso se deve a antiquários ideológicos de caudilhos como Chávez – que o que tem de burro tem de burro -, Morales e Correa e, principalmente, como assinalou o economista Roberto Campos, por causa de práticas como o mercantilismo patrimonialista, o estatismo e o nacionalismo.
Nossos revolucionários universitários entendem isso? Provavelmente não. Aliás, como assinalou Luiz Felipe Pondé em artigo escrito na Folha de S. Paulo há algum tempo, a militância socialista não costuma ser o maior exemplo de desempenho acadêmico. Em boa parte dos casos são apenas inocentes com sonhos revolucionários que nem se deram ao trabalho de ler ao menos Marx. Como disse Reinaldo Azevedo, atualmente o marxismo não produz mais nem mesmo marxistas.
Volto para a viagem de nossos estudantes. Será que quem tem um pensamento um tanto mais liberal e que, evidentemente, está custeando a viagem, será representado? Provavelmente não. Um “por que no te callas” vindo de um liberal não seria levado em consideração. Afinal, as premissas do encontro parecem já estar definidas. No final, provavelmente, como dito no início do texto, é só mais uma aventura estudantil. De militância vaga, boboca e intelectualmente nula. A antiga expiação de nossas mazelas pela cultura da inveja, característica de quem é avesso às responsabilidades individuais e delega ao Estado o papel eterno de pai.
A pergunta é: vale a pena gastar recursos do erário para bancar militância?