De uma leitora que se auto-intitulou “a leitora”, recebo um extenso e bem fundamentado comentário no post “Viva o povo brasileiro”. Caríssima, antes de qualquer coisa, confesso que fiquei cheio de curiosidade em saber quem é essa misteriosa leitora desse blog tão pouco visitado. Por agora, porém, vou me concentrar mais em seus argumentos e menos em sua identidade.
“... os que os turistas buscam em nosso país é o Brasil cartão-postal, aquele que se mantém a custa da pobreza de muitos miseráveis no maior estilo "cidade de deus" e da repressão louca da violência que tentam manter nas favelas e nas periferias, quadro pintado no famigerado "tropa de elite"... claro q a violência é apenas contida e espremida nas favelas, afinal um combate inteligente jamais será feito uma vez que o filho do dono d hotel cinco estrelas não pode perder seu fornecimento, isso quando ele próprio não se torna o traficante e assim forma-se um capital d giro pra incrementar um pouco mais o PIB...”.
Jamais foi negado que uma das principais qualidades turísticas do Brasil reside justamente em suas belezas naturais, ao menos foi o que interpretei com a expressão “cartão-postal” dentro de seu texto. Não acredito que o “Brasil cartão-postal” se sustente unicamente na miséria de muitos brasileiros. Ora, a faceta bonita do Brasil se sustenta por seu próprio objeto de exploração: a beleza. Os miseráveis são fruto de descaso estatal, péssima distribuição de renda e pitadas de excesso de emigração de seus lugares de origem. A violência é contida sobretudo nas favelas por estas serem nascedouro de boa parte da bandidagem. Não podemos também negar que uma enorme parcela do contingente de criminosos que cometem delitos nos bairros das metrópoles são oriundos das favelas. Mas, evidentemente, não é honesto fechar os olhos para o outro lado: o sustento dos bandidos do tráfico tem origem nas zonas mais nobres das grandes cidades. O filho do dono do hotel, como você disse, de fato possui grande parcela nesse complexo sistema. Essa questão, inclusive, foi tratada aqui no blog. Sugiro que leia o post “Hypocrisis cannabis”, do dia 28 de setembro de 2007. Quanto ao filme “Tropa de Elite”, nada posso falar. Ainda não assisti.
Chamo atenção também para outra parte de sua argumentação: “... discordo quanto ao exótico que atrai gente pra cá... na minha opinião o exótico em questão é unicamente o dos cenários naturais paradisíacos e da banalização do sexo barato... Porque ninguém, nem turistas, políticos, empresários ou membros da sociedade civil, contempla ou deixa de contemplar a pobreza, a miséria e a guerra... porque simplesmente tudo isso não existe pra gente...”.
Ainda insisto que a pobreza atua sim, em determinado grau, como fator de atração para turistas de países desenvolvidos. Do ponto de vista deles, trata-se de uma experiência quase antropológica, como já afirmei. É como ter contato com um mundo distante e completamente diferente do visto nas capitais do velho continente. Para ilustrar, segue um trecho de reportagem do site HOST, especializado em turismo:
Atraídos por filmes, telenovelas e romances que glamurizam a vida perigosa nas comunidades cariocas, os turistas estrangeiros procuram cada vez mais conhecê-las. São em média anual 40 mil visitantes, que, nos últimos quinze anos, ao chegarem ao Rio, procuram visitar algumas das 52 favelas da zona sul da cidade, onde, do alto, podem assistir ao espetáculo de beleza natural e ainda levar no diário de bordo e na máquina fotográfica histórias diferentes para contar. O mercado conta hoje com, pelo menos, cinco agências especializadas em turismo de favela. Segundo estimativa desses agentes, o número de turistas que opta por esses roteiros cresce anualmente entre 15% e 20%.
Outro ponto interessante por você abordado: “... e é claro, a repressão é sempre mais lucrativa pros políticos e grupos de pressão compostos pro empresários da construção civil e armamentos pra erguemos presídios e "armarmos" nossa polícia...”.
Concordo em parte. Sua frase faz todo sentido e é possível que nela haja muito de verdade. Porém, uma polícia bem armada e uma boa malha penitenciária não são apenas interesses dos personagens que você citou. Chegamos a um estágio tão infeliz que tais empreendimentos se tornaram interesse de todos os cidadãos.
No tocante ao turismo sexual, penso que nós dois estamos de pleno acordo e por isso acho que não tenho mais nenhum ponto a colocar.
Caríssima, sinta-se a vontade para ler, comentar e criticar os artigos aqui postados. E se em algum dia quiser se identificar, tanto melhor, pois dessa forma poderei te chamar por algum nome.
Um grande abraço,
Aluízio Couto


