17 de dezembro de 2010
Operadores verofuncionais em termos de condicionais e negação*
Nós não precisamos do operador para determinar os valores de verdade de P e de Q. No entanto, para uma fórmula com a conjunção ser verdadeira, P e Q terão de ser verdadeiras.
Para ilustrar isso, observe a tabela de verdade da conjunção:
P Q P ^ Q
V V V
V F F
F V F
F F F
Alguns operadores não são verofuncionais. Operadores não-verofuncional construirão proposições cujos valores de verdade não podem ser determinados somente com base no valor de verdade da proposição ou proposições concatenadas ao operador. Ao dizermos que João acredita que Q, em que Q é “Maria é estelionatária”, não podemos concluir nada sobre o valor de verdade de Q. Em outras palavras, não sabemos se podemos ou não enquadrar Maria no artigo 171 do Código Penal brasileiro.
Meu objetivo aqui, no entanto, não é exatamente discorrer sobre os cinco operadores verofuncionais em separado, e sim tentar demonstrar que podemos reduzi-los a apenas dois, nomeadamente, negação e condicional. A minha fonte principal na empreitada é o capitulo sobre lógica proposicional do livro “Logic for Philosophy”, do filósofo Ted Sider, atualmente professor na Universidade de Nova York. O procedimento será o seguinte: primeiro, vou transcrever a conjunção em termos de condicional, depois será a vez de a disjunção ter o mesmo tratamento e, por último, e da mesma forma, a bicondicional. No que concerne à conjunção, a demonstração é do próprio Sider. A disjunção e a bicondicional são tentativas minhas e eu não sei se estão corretas. Provavelmente estão erradas e por esse motivo agradeço ao leitor quaisquer correções.
Antes de tudo, a definição de interpretação pode ser útil:
Interpretação: uma interpretação é uma função (i) que assume para A o valor de 1 ou de 0. Se, por exemplo, uma proposição atômica P tiver o valor 1 ela é verdadeira, ao passo que se tiver o valor 0 é falsa. Assim, podemos dizer, por exemplo, que i(P) = 1 ou que i(P) = 0. Como em uma função um ou mais inputs só podem ser ligados a um output, concluímos que a função de verdade seja de uma proposição atômica P ou de uma fórmula mais complexa como P → Q tem de ser considerada em termos de verdade ou falsidade, e nunca ambas as coisas ao mesmo tempo.
Ligado ao que foi dito acima, Sider nos oferece um símbolo (V) correspondente a função do valor de verdade para expressões complexas. Por exemplo, podemos escrever a fórmula complexa acima nos seguintes termos: Vi (P → Q) = 1.
Como queremos tratar de condicionais e negações, definamos seus valores de verdade:
Condicional: o valor de verdade da condicional é verdadeiro se, e somente se, o seu antecedente for falso ou o seu conseqüente for verdadeiro. Dessa forma, temos que Vi (A → B) = 1 se, e somente se Vi (A) = 0 ou Vi (B) = 1.
Negação: o valor de verdade de uma proposição negada é verdadeiro se, e somente se, a negação da negação dessa dada proposição que acabamos de mencionar for falsa. Temos, então que Vi (~A) = 1 se, e somente se, Vi (A) = 0.
Vejamos as tabelas de verdade, respectivamente, da condicional e da negação:
P Q P → Q
V V V
V F F
F V V
F F V
P ~P
V F
F V
Já vimos alguma coisa sobre a conjunção, então definamos seu valor de verdade como verdadeiro se, e somente se, Vi (A) = 1 e Vi (B) = 1.
Disjunção: o valor de verdade de uma disjunção é verdadeiro se, e somente se, um de seus disjuntos for verdadeiro. Assim, Vi (A V B) = 1 se, e somente se, ou Vi (A) = 1 ou Vi (B) = 1.
Bicondicional: o valor de verdade de uma bicondicional é verdadeiro se, e somente se, o valor de verdade de A for igual ao de B. Assim, Vi (A ↔ B) = 1 se, e somente se, Vi (A) = Vi (B).
Quando falamos de valor de verdade dos operadores não estamos nos referindo ao valor de verdade de um “e” isolado, por exemplo. Referimo-nos, sim, a quaisquer fórmulas bem formadas que contenham os operadores, como, por exemplo, P ^ Q.
Veja as tabelas de verdade, respectivamente, da disjunção e da bicondicional:
P Q P V Q
V V V
V F V
F V V
F F F
P Q P ↔ Q
V V V
V F F
F V F
F F V
Passemos, então, para a demonstração do valor de verdade da conjunção em termos de condicional:
Conjunção
Assumamos que Vi (A ^ B) = 1 para chegarmos no seguinte resultado: Vi (A) = 1 e Vi (B) = 1. Ou seja, para podermos dizer que se o primeiro, então o segundo.
Vi (A ^ B) = 1 é equivalente a Vi (~(A → ~B)) = 1.
Se Vi (~(A → ~B)) = 1, então a negação disso, que é Vi (A → ~B) = 0 (ver regra da negação).
Com a definição da condicional em mente, sabemos que não é o caso de ou Vi (A) = 0 ou Vi (~B) = 1. Se não é o caso disso, temos, então, por De Morgan, que Vi (A) = 1 e Vi (~B) = 0. Aplicando a regra da negação em Vi (~B) = 0, podemos concluir que Vi (B) = 1. Assim, Vi (A) = 1 e Vi (B) = 1.
O que acabamos de ver foi o seguinte: Vi (A ^ B) = 1 → Vi (A) = 1 e Vi (B) = 1.
Façamos agora o caminho de volta para tentar demonstrar que se Vi (A) = 1 e Vi (B) = 1, então Vi (A ^ B) = 1.
Assumamos que Vi (A) = 1 e Vi (B) = 1. Assim, uma vez que Vi (B) = 1, sabemos pela regra da negação que Vi (~B) = 0. Dada a definição da condicional, sabemos que não é o caso de Vi (A → ~B) = 1. Portanto, pela negação novamente, Vi (A → ~B) = 0. E mais uma vez pela negação, Vi (~(A →~B)) = 1. Uma vez que Vi (~(A → B)) = 1, então Vi (A ^ B) = 1.
Portanto, Vi (A ^ B) = 1 se, e somente se, Vi (A) = 1 e Vi (B) = 1. □
Disjunção
Queremos demonstrar que Vi (A V B) = 1 se, e somente se, ou Vi (A) = 1 ou Vi (B) = 1.
Vi (A V B) = 1 é equivalente a Vi (~A → B) = 1. Assumindo que Vi (~A → B) = 1, então Vi ~(~A → B) = 0. Pela Negação da Condicional, temos que Vi (~A ^ ~B) = 0.
Mas pensemos em Vi ~(~A → B) = 0. Façamos, aqui, com esta condicional, o mesmo que foi feito acima, na demonstração da conjunção.
Sabemos que não é o caso – pela definição da condicional - de Vi (A) = 1 ou Vi (B) = 0. Por De Morgan, sabemos que Vi (~A) = 1 e Vi (~B) = 0. Pela negação, sabemos que Vi (A) = 0 e Vi (B) = 1. A definição da condicional nos diz que ou Vi (A) = 0 ou Vi (B) = 1.
Uma vez que Vi (A V B) = 1, essa mesma fórmula posta de forma condicional tem de ter valor igual a 1.
Assim, Vi (~A → B) satisfaz a definição (note os valores de A e B no penúltimo parágrafo). Portanto, Vi (~A → B) = 1.
Vimos que Vi (A V B) = 1 se, e somente se, Vi (A) = 1 ou Vi (B) = 1.
Façamos agora o caminho de volta para tentar demonstrar que Vi (A) = 1 ou Vi (B) = 1 se, e somente se, Vi (A V B) = 1.
Assumamos que Vi (A) = 1 ou Vi (B) = 0. Podemos dizer, assim, que Vi (~A) = 0 ou Vi (~B) = 1. Porém, se formos aplicar a regra da condicional, veremos que não é o caso de Vi (~A) = 0 ou Vi (~B) = 1. Logo, temos, novamente por De Morgan, que Vi (A) = 0 e Vi (B) = 1. Isso satisfaz a definição da condicional de que ou Vi (A) = 0 ou Vi (B) = 1. Colocando, então, em forma de condicional, podemos dizer que Vi (~A) = 1 → Vi (B) = 1. Assim, Vi (~A → B) = 1 e, conseqüentemente, Vi (A V B) = 1.
Assumamos, agora, que Vi (A) = 0 ou V(i) B = 1. Aqui o trabalho parece ser mais fácil, uma vez que o que temos aqui é a própria definição da condicional. Assim, podemos dizer que Vi (~A → B) = 1. Por conseguinte, Vi (A V B) = 1.
Vimos, com isso tudo, que Vi (A V B) = 1 se, e somente se, ou Vi (A) = 1 ou Vi (B) = 1. □
Bicondicional
Vejamos o que acontece com a bicondicional. Vamos relembrar o que foi dito sobre ela: o valor de verdade de uma bicondicional é verdadeiro se, e somente se, o valor de verdade de A for igual ao de B. Assim, Vi (A ↔ B) = 1 se, e somente se, Vi (A) = Vi (B).
Assumamos que Vi (A ↔ B) = 1. Isso significa que Vi (A) = 0 e Vi (B) = 0 ou Vi (A) = 1 e Vi (B) = 1.
Assim, podemos dizer que Vi ~ (A ↔ B) = 0. Disso, podemos extrair que Vi ~ (A ↔ B) = 0 é equivalente a Vi (A) = 1 e Vi (B) = 0 ou Vi (A) = 0 e Vi (B) = 1.
Aplicando a regra da condicional, vejamos como funcionam os diferentes valores de verdade para A e para B. O que podemos notar, e não acredito que seja por acaso, é que a condicional funciona de acordo com a regra nas ocasiões em que os valores de verdade de A e B são iguais. Vejamos:
Vi ((A) = 0) → (Vi (B) = 0) = 1
Vi ((B) = 0) → (Vi (A) = 0) = 1
Vi ((A) = 1) → (Vi (B) = 1) = 1
Vi ((B) = 1) → (Vi (A) = 1) = 1
Compare com o que ocorre quando tentamos valores diferentes para A e B:
Vi ((A) = 0) → (Vi (B) = 1) = 1
Vi ((B) = 1) → (Vi (A) = 0) = 0
Vi ((A) = 1) → (Vi (B) = 0) = 0
Vi ((B) = 0) → (Vi (A) = 1) = 1
Assim, se Vi (A) = Vi (B), a bicondicional tem valor 1. E se a bicondicional tem valor 1, Vi (A) = Vi (B). Veja que tanto a “ida” quanto a “volta” das condicionais assumem valor 1 se os valores de A e B forem os mesmos. Isso, no entanto, não ocorre quando assumimos valores diferentes para A e B.
Assim, podemos dizer que Vi (A ↔ B) = 1 se, e somente se, Vi (A) = Vi (B). □
Referências:
Sider, Theodore (2010). Logic for Philosophy. Oxford: Oxford University Press
Downes, Stephen, “Operadores Proposicionais”, em Crítica na Rede. http://criticanarede.com/operator.htm (acessado em 30/04/10)
Newton-Smith, W. H. (1985) Lógica: Um Curso Introdutório. Trad. D. Murcho. Lisboa: Gradiva, 1998.
9 de agosto de 2010
Financiamento público de cultura: os mecenas não estão na festa
Como o povo não sabe de nada, os acadêmicos e, claro, os políticos acabam decidindo pelo púbico o que é, afinal, de interesse público. Em alguns casos, isso custa dinheiro. Tomemos o exemplo do financiamento da cultura com recursos de governos. A pergunta é: por que um padeiro que jamais se interessou por literatura tem de ajudar a financiar a vinda de escritores estrangeiros ao Brasil? Mais: por que um administrador de empresas que jamais se interessou por cinema tem de bancar a realização de um filme que ele jamais vai ver? A maioria dos artistas, escritores e cineastas produzem coisas que o grosso da população não se interessa e que provavelmente jamais vai se interessar. Infelizmente, temos de encarar a realidade. Quase todo mundo vai continuar escutando Ivete Sangalo e não notará a menor diferença no universo caso todos os escritores importantes desapareçam das livrarias.
Tivemos recentemente, no Rio de Janeiro, a Festa Literária Internacional de Paraty, conhecida como Flip. Muita badalação e escritores consagrados, como o britânico Salman Rushdie, mundialmente conhecido após o líder islâmico Aiatolá Khomeini ter colocado sua cabeça a prêmio por causa de passagens do livro Versos Satânicos. Como toda festa, a Flip custou bastante dinheiro. E parte do dinheiro veio do bolso do contribuinte, uma vez que o estado não produz riqueza. A Folha de São Paulo informou que o Governo do Estado do Rio de Janeiro ficou com a responsabilidade de arcar com cifras milionárias relacionadas à realização do evento; isso sem falar nos recursos captados por meio da Lei Rouanet, que permite que empresas amaciem impostos com investimentos em cultura. Fez-se o evento e os convidados vieram de longe. O problema é que boa parte dos mecenas ficaram em casa assistindo televisão.
Existe uma obsessão de que a cultura – ou parte dela - deve ser financiada pelo governo. De uma hora para a outra, qualquer percursionista pode se sentir no direito de arrancar do bolso do contribuinte as divisas necessárias para gravar um disco que ninguém vai ouvir; da mesma forma, um cineasta pode agora pleitear recursos para fazer um filme que ninguém vai ver. Ingenuamente, eu achava que cultura era uma manifestação espontânea e que assim formaria sua própria demanda por um determinado produto ou estilo. Estava errado. Chegamos à divertida situação em que o erário precisa bancar manifestações culturais para forçar uma demanda que deveria ter surgido naturalmente.
Se a maioria das pessoas não liga para literatura, para cinema e para artes em geral, não há sentido forçá-las a pagar por isso. Tornar compulsório o financiamento de manifestações artísticas é desrespeitar o gosto pessoal do contribuinte; faz com que lhe seja retirado o direito de pagar somente pela arte que lhe aprouver. É infantilizá-lo. Se ninguém, por exemplo, quiser saber de teatro de rua, a única solução minimamente sensata é deixá-lo definhar. Não há motivos para forçar o consumo. Quem se interessar, que vá atrás. Muitas vezes, obscurecido por um discurso de interesse público, o que se vê é o puro interesse privado – seja do artista, da gravadora ou da editora. Na antiguidade e em períodos mais modernos, os grandes mecenas costumavam financiar os artistas por verdadeiro interesse na arte produzida. No Brasil, o mecenato é compulsório e a maioria dos ilustres mecenas não faz a menor idéia de quem financia.
20 de dezembro de 2009
De que lado está, senhor Altamiro Borges?
21 de novembro de 2009
Walter Sorrentino e eu
Walter Sorrentino acredita que os assassinatos que Cesare Battisti cometeu na Itália foram políticos. Eu não. Walter Sorrentino é um dos grandes nomes do PCdoB. Eu não. Walter Sorrentino justifica crimes de sangue quando enxerga motivações políticas em nome da “causa”. Eu não. Walter Sorrentino tem um blog chamado “Projetos para o Brasil”. Eu não. Walter Sorrentino deve se arrepiar todo quando pensa em colocar em prática seus projetos para o Brasil. Eu também me arrepio todo.
19 de novembro de 2009
Tarso Genro está de sacanagem
15 de novembro de 2009
O dito que nada diz
9 de novembro de 2009
Que não volte nunca mais
8 de novembro de 2009
Inversão*
A Universidade Bandeirantes (Uniban), depois de muita demora, resolveu agir. O caso é o seguinte: no dia 22 de outubro, a aluna de turismo Geisy Arruda foi à faculdade usando um vestido, assim, bem curtinho. Os outros alunos não gostaram. Por causa disso, fizeram uma baderna inacreditável por causa do paninho que a moça vestia. Geisy teve de ser retirada do local com a ajuda da polícia sob os gritos dos estudantes. Nada elogiosos, é claro. Todos estavam esperando a punição dos envolvidos para se colocar, enfim, uma pedra sobre o assunto. Mas o que a universidade fez? Expulsou Geisy. Para a Uniban, “a atitude provocativa da aluna resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar”. Ainda segundo a universidade, os alunos que foram identificados na algazarra foram suspensos temporariamente.
*Por motivos de pressão de todos os lados, a Uniban desistiu, nesta segunda (09), de expulsar Geisy.
31 de outubro de 2009
Eles são o que são; nós somos o que somos
27 de outubro de 2009
Publicação no Observatório II
25 de outubro de 2009
Falta vergonha na cara
23 de outubro de 2009
Quando o assunto é Deus: a imprensa informa ou desinforma?
O bom artigo de Eugênio Bucci - Notícias sobre a inexistência de Deus (publicado no Observatório da Imprensa) -, além de mostrar que a alegada notícia não é mais algo tão bombástico quanto se pensa, pode oferecer outra reflexão. Estão os jornalistas, de modo geral, devidamente preparados para lidar com a questão filosófica da existência ou inexistência de Deus?
Nos últimos anos, na esteira dos lançamentos de autores como Sam Harris, Richard Dawkins, Christopher Hitchens e outros profetas do ateísmo moderno, o imbróglio teológico veio com força às pautas. E a aceitação passiva de certas declarações tem demonstrado que os profissionais de imprensa não estão preparados para lidar com um assunto que, não é todo mundo que sabe, possui alto grau de sofisticação teórica. É possível que o despreparo venha de uma visão obtusa da filosofia como atividade desprovida de rigor. Ou até mesmo de um desconhecimento da história do tratamento filosófico da questão – enfim, má realização do dever de casa.
O resultado disso tudo é desinformar. Quando José Saramago diz em entrevista ao Estado de S. Paulo que “Deus não existe fora da cabeça das pessoas que nele creem”, está comprometido com uma tese metafísica altamente controversa e nem um pouco nova. O ar explosivo da frase do escritor perde um pouco de sua força quando nos damos conta que Anselmo, já no século XI, considerou a diferenciação entre entidades que existem somente na imaginação e aquelas que existem tanto na imaginação quanto na realidade. Deus, para Anselmo, existe tanto na imaginação quanto na realidade. Posteriormente, outros filósofos tentaram desenvolver o pensamento de Anselmo ao longo da história. Ora, se o jornalista que entrevistou Saramago já sabia da posição do escritor, poderia ter levantado a objeção de que a afirmação dada não é consensual entre os estudiosos do assunto.
A frase seguinte, dita na Itália, também merece consideração:
"Que Ratzinger tenha a coragem de invocar Deus para reforçar seu neomedievalismo universal, um Deus que jamais viu, com o qual nunca se sentou a tomar um café, demonstra apenas o absoluto cinismo intelectual da personagem."
Parece que Saramago só consideraria como evidência verdadeira da existência de Deus aquela que nos tocasse os sentidos. Um estudo filosófico sério nos diria que não necessariamente. A questão toda é, novamente, de fundo metafísico e sua implicação principal é saber se Deus é uma entidade necessária na estrutura da realidade. Por “necessário”, dentro do jargão, entendemos algo que existe e não poderia não existir. A disposição de Deus para tomar um café com o papa é algo de importância secundária. Em outras palavras, não precisamos captar Deus para que sua existência seja verdadeira.
É possível que esta concepção, digamos, materialista da evidência, seja resquício de um senso comum que considera a existência de Deus um assunto pertinente somente às ciências empíricas, esquecendo a importante contribuição que o estudo sistemático da metafísica pode oferecer. É claro que um jornalista ao lidar com o assunto não precisa estudar conceitos modais como necessidade ou possibilidade, inerentes à metafísica. Mas seria proveitoso para qualquer jornalista presente no momento da declaração entender que a via proposta por Saramago não é a mais adequada. Novamente, é só ir aos livros de história da filosofia.
A importância da lógica
Uma vez que o jornalismo é uma atividade crítica, uma boa sugestão para aguçar o caráter crítico da profissão é o estudo da lógica. Não é aceitável que um profissional que lida com argumentos tenha pouca idéia do que, afinal, é um argumento (uma experiência interessante seria perguntar para jornalistas uma definição de argumento). Com maior domínio da lógica (sobretudo aspectos da lógica informal), o jornalista do Estado poderia indagar a Saramago quais premissas sustentam sua conclusão de que Deus só existe dentro da cabeça daqueles que nele creem. No caso da declaração feita na Itália, seria pertinente perguntar o que sustenta o citado materialismo em relação à evidência.
Existem no mercado bons manuais de lógica que podem dar ao jornalista preciosas noções de argumento, validade ou invalidade de argumentos e, importantíssimo, dicas para evitar falácias. Assim como o estudo da história, é dever de casa do jornalista dominar com alguma eficácia prática a disciplina que está por trás da argumentação, pois querendo ele ou não, os argumentos estarão lá. Logo, a lógica também.
Quando o padre Manuel Morujão, citado no artigo de Bucci, diz que “um escritor da craveira de José Saramago deveria ir por um caminho mais sério”, é provável que esteja correto. Partindo das falas de Saramago, tanto na entrevista ao jornalão paulistano como na Itália, pode-se concluir que o escritor andou ignorando os livros de metafísica. Portanto, não poderia posar de autoridade no assunto.
Os jornalistas, por sua vez, deveriam ir com mais freqüência ao estudo da história da filosofia e, podendo aplicar também a usos mais gerais, ao estudo dos aspectos da lógica. Todos ganhariam. A discussão sobre a existência ou inexistência de Deus seria mais precisa e o leitor seria premiado com uma abordagem de qualidade. Já que é para colocar na mesa de debates tal problema teológico, que se faça isso respeitando certos aspectos fundamentais do assunto e que se mantenha o espírito inquisitivo e informado perante as supostas “autoridades”.
20 de outubro de 2009
Publicação no Observatório
15 de outubro de 2009
13 de outubro de 2009
Bertolino, o sagaz
O jornalista Osvaldo Bertolino, que tem um blog chamado “O Outro Lado da Notícia”, anda bastante indignado com o destaque que a também jornalista Yoani Sánchez vem tendo no noticiário nacional. Yoani, cubana, acaba de lançar no Brasil o livro “De Cuba, com carinho” e até agora não foi autorizada a sair da ilha para poder comparecer ao lançamento da obra.
Tentando se antecipar a qualquer crítica ao fato de Yoani ter dificuldades para deixar o país, o valente nos informa que a jornalista, "como qualquer cidadão em qualquer país democrático, está submetida às leis aprovadas com ampla participação do povo cubano." Vejamos em que bicho isso dá: se Bertolino está propondo uma espécie de "absolutismo" legal, teria de aceitar também, por exemplo, um regime neoliberal, desde que tal fosse aprovado com ampla participação do povo. Acho implausível que Bertolino aceitasse isso. Essa gente só pensa em vermelho. Parece, então, que o dever de resignar-se às leis aceites pelo povo é verdadeiro desde que o regime tenha um determinado perfil. E para Bertolino este perfil tem a forma de um regime autoritário de esquerda. Então, se Cuba é um regime autoritário de esquerda, Yoani deve abaixar a cabeça. O problema da frase de Bertolino é que a amplitude dela acarreta conseqüências que ele provavelmente não aceitaria.
Puta que pariu.
9 de outubro de 2009
Cuba e imprensa de oposição
Na foto, Elaine Tavares. Para ela, Cuba e liberdade de imprensa convivem bem
Como bem disseram Mendoza, Montaner e Llosa, Cuba é realmente um amor que não se esquece e nem se deixa. Um amor, contudo, cultivado em grande parte por pessoas que não estão na ilha e não vivem a realidade de um regime unipartidário que está há 50 anos no poder. É possível que se trate de um mito romântico: a imagem de alguns barbudos descendo a serra e tomando o poder num país então governado por um ditador, digamos assim, de direita, cativou o coração de muita gente. As coisas, porém, não parecem ser lá muito agradáveis na ilha. Cuba é efetivamente uma ditadura onde vigoram restrições severas às liberdades de expressão, políticas e de imprensa. A alegação de que o país, com a ajuda da extinta URSS, melhorou alguns índices sociais internos simplesmente não justifica as restrições.
Dito isto, chega a ser interessante um texto da jornalista Elaine Tavares publicado no Observatório da Imprensa em 16/06/2009. A jornalista aborda a existência de um suposto jornalismo crítico praticado em Cuba. Para sustentar sua visão, ela reproduz falas de Tubal Paez, presidente da União de Periodistas do país: "Em Cuba os jornalistas são críticos, porque é nossa função ser crítico. É o que nos ensinou a revolução, é o que ensinam na escola e é o que a União dos Jornalistas exige. Defendemos a revolução, mas aquilo que é mal feito, nós criticamos." Querendo mostrar que também há massa crítica no ato de avaliar os próprios colegas de imprensa, Paez diz que "ser protagonista do processo revolucionário é bom, mas às vezes há jornalistas que exageram na retórica ou no louvor." A pergunta que Elaine Tavares e Tubal Paez não respondem, e que surgiria com naturalidade em qualquer conversa sobre a imprensa em Cuba, é se há jornalismo de oposição legitimamente cubano que não comungue dos ideais da revolução e atue com liberdade. Poderia, por exemplo, um veículo com ideais claramente "reacionários" fincar sede em Havana?
De fato, o texto até tenta responder a algo um pouco relacionado à pergunta, mas que falha na questão central. Primeiro, Elaine Tavares afirma que "Cuba é o país onde existe o maior número de veículos de oposição." Para termos uma idéia, continua ela, "existem 32 emissoras de rádio transmitindo todos os dias desde a Flórida, sempre com conteúdo especificamente contra Cuba e contra o socialismo." Além disso, prossegue, "há uma emissora de TV, cinicamente chamada de TV Martí (nome do mais importante revolucionário cubano, também jornalista) que transmite diariamente conteúdo anti-Cuba com um sinal que é gerado por aviões que sobrevoam a ilha." A gloriosa conclusão vem de Paez: "são, portanto, mais de 1.900 horas semanais de informação anti-governo, o que nos faz crer que não há governo no mundo que tenha tanta oposição."
Conclui-se, assim, que há oposição em Cuba e o país é um exemplo de pluralidade de idéias, certo? Não necessariamente. Com base nas falas, tanto da jornalista brasileira como do jornalista cubano, é possível concluir que a imprensa de oposição ao regime comunista é feita majoritariamente de fora da ilha. A questão fundamental de saber se há imprensa de oposição fundada e registrada no território de Cuba por cidadãos cubanos fica sem resposta. Talvez uma abordagem mais conscienciosa da questão indicasse que os irmãos Castro não permitem a criação de uma imprensa verdadeiramente de oposição dentro do país. Assim, parece que Elaine Tavares substitui o papel dessa imprensa inexistente pelas que atuam fora do país e transmitem para dentro ou até mesmo por jornalistas designados pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos. E isso daria uma impressão de pluralidade de idéias.
Um pouco mais adiante, Elaine nos oferece outra tentativa. "Estão em Havana mais de 160 jornalistas que são correspondentes estrangeiros, podendo transmitir o que quiserem, sem qualquer censura." Um correspondente estrangeiro geralmente faz matérias para o veículo que está em seu país de origem. E mesmo que essa informação seja verdadeira, ela ainda nada diz sobre a questão fundamental já citada.
Também é interessante a abordagem do acesso à internet dentro da ilha. Segundo Paez, as restrições existem "porque os Estados Unidos proíbem que os cabos de banda larga sejam conectados a Cuba." Curiosa a tese. Partindo do consenso que os Estados Unidos são contrários ao regime cubano, que arma seria mais eficaz aos interesses americanos do que o livre acesso do povo à internet? E mesmo se isso for verdade, um problema ainda fica de pé. Já que o governo castrista nada tem contra o acesso dos cubanos à internet, por que bloquear o blog da jornalista Yoani Sánchez? Há, por acaso, algo que não pode ser lido?
Aliás, é curioso ver uma jornalista brasileira tecendo loas a um regime em que não vive na carne com o rigor e o desgaste do dia após dia. Quando se lê o blog de Yoani Sánchez, que mora em Cuba e vive a realidade do país, tem-se um ponto de vista completamente diferente. Yoani relata as dificuldades, a burocracia e a censura que sofre na ilha. Alguns dos contratempos são maximizadas justamente por ela ser uma jornalista que bate de frente com o regime dos irmãos Castro. Sobre o acesso à internet, a versão de Yoani é bem diferente do que sustenta o texto de Elaine Tavares. Yoani disse em entrevista à revista Época que "nenhum cubano pode contratar um serviço de internet doméstico, só altos funcionários do governo e estrangeiros." Ainda segundo ela, uma pessoa comum que queira acessar a rede precisa ir a locais públicos, como cafés e hotéis. "E o custo é o equivalente a um terço de um salário médio em Cuba – estou falando de US$ 6 a US$ 8 por hora."
Yoani Sánchez viria ao Brasil para lançar o livro "De Cuba, Com Carinho", que reúne alguns textos de seu blog. O regime, entretanto, não autorizou a visita da jornalista. "Os cidadãos cubanos são como crianças, que precisam da autorização do papai para sair de casa", afirmou à rádio CBN. De fato, um regime que trata seus cidadãos como crianças - por vezes com chineladas - provavelmente não aceitaria o estabelecimento de imprensa de oposição livre.
6 de outubro de 2009
Humor: Filosofia do Chifre
Muita gente diz por aí que a filosofia é de algo inútil. De fato, não serve para plantar, não dá para comer, não faz muita diferença na estrutura de mercados internacionais e ninguém que arrisca na Bovespa dá antes uma passadela de olhos na Metafísica de Aristóteles. O senso comum, enfim, é partidário de certo positivismo prático em que o principal lema poderia ser “se não tem aplicabilidade prática, é puro diletantismo”.
Isso tudo, evidentemente, não é verdade. Podemos pensar filosoficamente sobre os mais importantes temas da humanidade. O principal? A cornitude. É um fenômeno realmente interessante. Nunca acontece em primeira pessoa, só em terceira. Todo mundo tem um primo, um amigo ou um irmão que acordou mal acomodado no travesseiro por efeito de uma anomalia anatômica sobre a cabeça. Em suma, há mais primo, amigo ou irmão do que chifre. Comigo? Nunca!
A filosofia sempre gostou de delimitar coisas, de diferenciar coisas e de conceituar coisas. A cornitude não escapou. Existe, por exemplo, o corno metafísico. Explico: a metafísica é a área da filosofia que estuda a estrutura mais fundamental, digamos assim, da realidade. E uma vez que o chifre é uma entidade realmente existente, não poderia escapar ao estudo da metafísica. Chamamos corno metafísico aquele que possui os chifres, mas não sabe da existência deles.
Citei o verbo “saber”? Sim, e a palavra saber lembra outra área da filosofia: a epistemologia. Grosso modo, podemos definir a epistemologia como a disciplina que tenta estabelecer condições necessárias e suficientes para atribuir um determinado conhecimento proposicional a dado indivíduo – seja ele corno ou não. Dessa forma, o corno que tiver ciência da sua condição humilhante é chamado de corno epistêmico.
Atenção: todo corno epistêmico é também metafisicamente corno, mas nem todo elemento metafisicamente corno é um corno epistêmico. Alguns filósofos da cornitude estabeleceram que o coerentismo é a teoria que melhor explica a cornitude epistêmica. Logo se percebe o motivo: é perfeitamente intuitivo pensar que a proposição “sou corno” é bastante coerente com proposições do tipo “há 17 chamadas de um tal Fernando_academia no celular da minha namorada”.
Existe também o corno modal. A modalidade é basicamente o estudo de noções como possibilidade e necessidade. Há coisas que são, mas poderiam não ser; há coisas que são e não poderiam não ser. Há também coisas que não são e poderiam ser e coisas que não são e não poderiam ser. O corno modal está entre os que são e não poderiam não ser. Trata-se da espécie mais humilhada e resignada de todos os chifrudos. O corno modal é corno em todos os mundos possíveis em que ele existe. Em suma, se ele existir, ele necessariamente será corno. A expressão "mundo possível" significa "modos como as coisas podem ser". Logo, não há forma de o corno modal não ser corno.
Alguns filósofos, para salvar a pele dos cornos modais, tentaram elaborar uma teoria que diz que um corno modal é um ser necessariamente inexistente. Desse ponto de vista, um corno modal é como um triângulo quadrado. A falcatrua fica evidente quando percebemos que o triângulo quadrado é uma bizarrice analítica gritante, ao passo que o corno modal é perfeitamente aceitável conceitualmente. Falando como os essencialistas, o corno modal é essencialmente corno. Nele, o chifre não é acidental.
Todo corno é metafisicamente corno. Mas não é todo corno que é epistemicamente corno, como já dito. Todo corno modal é, obviamente, metafisicamente corno. E todo aquele que ainda não é corno é possivelmente corno. Dessa forma, há pelo menos um mundo possível em que um atual não-corno possui vistosos chifres. A cornitude é ampla. E ainda assim parecem existir mais primos, amigos ou irmãos do que chifres. E olhe que estes vêm em par.
Por fim, corno é aquele que diz: no creo en el cuerno, pero que lo hay, hay.
